Muçulmanas reivindicam igualdade de tratamento entre homens e mulheres nas mesquitas da França

Kahina Bahloul diz que a separação entre homenes e mulheres não tem sentido: “É um tipo de esquizofrenia. Hoje todos os dias homens e mulheres estão juntos no trabalho, na escola, na universidade” Foto: Divulgação

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Na vez em que foi orar na prestigiosa Grande Mesquita de Paris, Kahina Bahldoul se viu relegada a uma desconfortável sala no subsolo, adjacente ao banheiro masculino, onde mal se ouvia o imã que pregava exclusivamente para os homens no recinto principal, um andar acima, ao qual o acesso das mulheres era proibido.

— Mas vivi uma experiência ainda pior — conta ela. — Fomos em um grupo, homens e mulheres, a uma mesquita nos arredores de Paris. Ao chegarmos, disseram para nós, mulheres: “Atravessem a rua e encontrarão uma garagem, lá é o lugar de vocês”. Ainda por cima, era uma data de festa religiosa. Na garagem, era péssima a transmissão do sermão pelo alto-falante. Foi algo extremamente desagradável, me senti insultada. A partir daquele dia, decidi não frequentar mais mesquitas e passei a fazer minhas orações em casa.Kahina Bahloul diz que a separação de homens e mulheres não tem sentido: “É um tipo de esquizofrenia. Hoje todos os dias homens e mulheres estão juntos no trabalho, na escola, na universidade” Foto: Divulgação

Fundadora e presidente da associação Fale-me do Islã e também doutoranda em Islamologia na Escola Prática de Altos Estudos (EPHE, na sigla em francês), Kahina, 39 anos, não se resignou às rezas caseiras e resolveu combater os ditames sexistas do Islã tradicional. Recentemente, anunciou o projeto de criação de uma mesquita mista na capital francesa, batizada Fátima, com homens e mulheres presentes na mesma sala e sermões feitos alternadamente por imãs dos dois gêneros. Se a iniciativa — de estatuto redigido, mas ainda em busca de financiamento e de um local — se concretizar, será a primeira mesquita do tipo na França, país que registra o maior número de muçulmanos na Europa (cerca de 5,7 milhões, segundo o Centro de Pesquisas Pew).

— Penso que essa separação, hoje, não tem mais sentido. É um tipo de esquizofrenia. Estamos no século XXI, todos os dias homens e mulheres estão juntos no trabalho, na escola, na universidade, por todo lado, e quando se trata da mesquita e da religião, a impressão é que se deve fazer marcha a ré. E ainda assim, no século VII, mulheres e homens estavam juntos na mesquita do profeta. Exceto que os homens ficavam à frente das mulheres.

Islã na história

Em seu projeto de mesquita, idealizado em conjunto com Faker Korchane, professor de Filosofia e fundador da Associação pelo Renascimento do Islã Mutazilita (ARIM), mulheres sem véu serão admitidas e os fiéis dos sexos masculino e feminino formarão dois grupos, dispostos lado a lado. A ideia inicial era misturar completamente a audiência, mas, em consultas realizadas, houve muitos relatos do incômodo em ter alguém do sexo oposto muito próximo em ato de prosternação religiosa.

— Apenas para evitar esse embaraço, decidimos que homens e mulheres estarão em lados opostos, mas todos na mesma linha, simbolicamente para dizer que somos iguais — explica Kahina. — Chegou a hora de as mulheres reocuparem os locais de espiritualidade. Se vê isso nos recentes protestos na Índia (contra a interdição de mulheres em idade de menstruar no templo de Sabarimala) ou na existência de mulheres imãs nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Itália, na Inglaterra ou na Alemanha.

Seus argumentos não recorrem apenas ao feminismo contemporâneo, também opõem a historicidade do Islã à propagação atual das teologias fundamentalistas. Kahina critica a predominância dos ensinamentos e práticas de um Islã ultraconservador, e lembra que nem sempre foi assim.

— Os movimentos fundamentalistas como a Irmandade Muçulmana, sejam wahabitas ou salafistas, tiveram os meios financeiros para promover e difundir sua ideologia de forma ampla. A escola de teologia mais conhecida no Magreb é maliquita, que tem as proposições mais duras, e com forte influência na França. Mas no século XII, Ibn Arabi, grande pensador da teosofia mística muçulmana, não via nenhuma restrição a mulheres imãs. E outros como ele pensavam assim.

O anúncio do projeto da mesquita Fátima recebeu adesões, mas também, como poderia se esperar, ofensas e ataques via redes sociais. Em Berlim, a alemã Seyran Ates, cofundadora da mesquita aberta a mulheres e membros da comunidade LGBT inaugurada em 2017, chegou a ter proteção policial após ter sido ameaçada de morte. Kahina afirma ter recebido comentários “duros e virulentos”, mas assegura não ter medo. Se disse surpresa, no entanto, com reações femininas:

— Há também mulheres que recusam isso. É extraordinário, mas existe. É uma mentalidade misógina e patriarcal profundamente enraizada e muito ligada à ignorância. Essas pessoas atuam como papagaios, repetem o discurso salafista, não vão ler nos livros outras opiniões e discursos. Não estou inventando nada de extraordinário, do ponto de vista teológico não faço nada de mal, tento apenas fazer com que se redescubra coisas que estão na própria religião — defende.

Luta pelo poder

Kahina e Faker não estão sozinhos em seu embate na França. Anne-Sophie Monsinay e Eva Janadin, fundadoras da associação Voz de um Islã Esclarecido (VIE) — movimento por um islã espiritual e progressista — também anunciaram um projeto de criação de um lugar de culto muçulmano “inclusivo”. “A rede de mesquitas francesas está dominada por um conservadorismo religioso que se deixa envenenar por lutas de poder entre diferentes facções nacionais estrangeiras, por interesses financeiros desmesurados e pela influência do extremismo religioso. É urgente, hoje, construir novos locais de culto para responder às necessidades de muçulmanas e muçulmanos ‘órfãos de mesquita’ que se sentem sós em sua prática do islã”, escrevem em sua justificativa do projeto.

Em sua mesquita, denominada Simorg, a vestimenta será livre, os sermões serão pronunciados em francês e também haverá alternância de imãs masculinos e femininos. Mas, diferentemente do projeto Fátima, os fiéis homens e mulheres estarão totalmente misturados na sala de sermão, sem a separação esquerda-direita. “Muitos muçulmanos e muçulmanas estão prontos a essa mistura e não suportam mais que se considere as mulheres como seres inferiores limitados a suas partes genitais”, sustentam Anne-Sophie e Eva.

Kahina se impôs como missão oferecer uma narrativa e uma prática religiosa alternativas às correntes conservadoras do Islã:

— É tentar abrir o debate para que as pessoas possam ter consciência de que não existe apenas o discurso que estão habituadas a ouvir. É preciso acabar com a ignorância e mostrar às novas gerações que há uma outra forma de viver o islã — desabafa.

LEIA AQUI O TEXTO PUBLICADO EM “O GLOBO”.

Anúncios

Euro celebra seus 20 anos neste 1° de janeiro em uma Europa sem liderança e abalada por incertezas políticas e econômicas

Manifestação dos “coletes amarelosé na França: “Sua Europa nos arruína”. © Simon Guillemin/Hans Lucas/AFP

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Lançado em clima de euforia em 1999, o euro celebra seus 20 anos neste 1° de janeiro em uma Europa claudicante, sem liderança e abalada por incertezas políticas e econômicas. A inédita insurreição dos coletes amarelos na França revelou a crescente desconfiança em relação às instituições e a fragilidade do contrato social vigente em democracias europeias, em mais uma manifestação de mal-estar num continente já sacudido pela escalada dos nacionalismos, as incógnitas do Brexit e a desaceleração econômica. Tanto o governo populista italiano como o europeanista francês desafiam, hoje, as rígidas regras orçamentárias da zona euro para satisfazer seus programas políticos e as demandas domésticas reclamadas pelas ruas. Na opinião de especialistas, a moeda única completa duas décadas com um balanço contraditório em meio à desordem social e política.

O economista Philippe Martin, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), acredita que a Europa se encontra, hoje, mais exposta do que estava na época da crise financeira mundial de 2008-2009.

– Somos mais vulneráveis porque nossa dívida pública é bem mais elevada, os partidos populistas são mais importantes e o contexto social é bem mais complicado. Estamos menos protegidos, inclusive, a um choque de menor intensidade, esse é o perigo. O euro não funciona perfeitamente, mas penso que deve ser melhorado e não abandonado.

Martin define as inquietudes dos coletes amarelos como legítimas, mas nota “aspecto populistas” nesta crise que ultrapassa as fronteiras da França, com consequências europeias:

– Dizer que se vai baixar os impostos, aumentar as despesas públicas e reduzir a dívida, chega uma hora não é mais coerente. É preciso um maior equilíbrio das políticas social e fiscal, mas isso deveria ter sido feito antes, não sob a pressão das ruas. Fazer agora, na precipitação, não é algo simples. A questão econômica e social é central, mas vai além disso, atinge a representatividade política, o funcionamento das instituições.

Para conter os violentos protestos dos coletes amarelos e aumentar o poder de compra das populações desfavorecidas, o presidente francês, Emmanuel Macron, requisitou € 10,3 bilhões dos cofres públicos e reduziu temporariamente a receita tributária. Por conta disso, em 2019 o país deverá registrar o pior desempenho em termos de déficit público entre os 19 países da zona euro, com uma previsão de 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos 2,8% anteriormente estimados e do limite de 3% estabelecido pelos critérios europeus. Macron “perdeu em autoridade”, declarou na semana passada o comissário europeu de Orçamento, o alemão Günther Oettinger, sem, no entanto, acenar com sanções.

Já a Itália, depois de uma acirrada queda de braço de várias semanas com a Comissão Europeia, finalmente concluiu, no último dia 19, um acordo em torno de seu programa de orçamento, com previsão de déficit de 2,04% e a promessa de adoção de medidas que evitem o aumento de sua dívida pública, hoje em cerca de 130% do PIB. O vice-premier italiano e líder da extrema-direita, Matteo Salvini, acusou Bruxelas de usar dois pesos e duas medidas em relação aos problemas de Roma e Paris.

Para Daniel Cohen, da Paris School of Economics (PSE), a situação é de “extraordinária confusão”:

– Não se sabe se a União Europeia (UE) está explodindo ou atravessando um período de estagnação, como outros que já teve em sua história. Há um mês, diria que os italianos estavam prestes a sair da Europa. Criaram todas as condições para isso, mas acabaram recuando. Já para Macron, a situação da França significa a perda de seu leadership natural europeu. É um dos poucos políticos que fez da UE sua bandeira, e o fato de ter sido privado de suas pretensões a essa liderança não é uma boa notícia nestes tempos de necessária reconstrução europeia.

O analista Yves Bertoncini, presidente do Movimento Europeu-França, credita uma parte de commedia dell’arte às provocações de Matteo Salvini:

– O psicodrama existia, mas não foi contido por pressão de Bruxelas, e sim porque tudo isso ocorre sob a vigilância dos mercados financeiros, que passaram a fazer a Itália pagar mais caro por sua dívida pública. Mas é verdade que, hoje, seria delicado pressionar ainda mais o governo italiano, uma vez que a França se colocou nesta situação embaraçosa de deixar escapar seu déficit. A zona euro tem muitos defeitos, provoca insatisfações: para certos países, é muita austeridade e rigor orçamentário e, para outros, excessiva solidariedade e tolerância. No entanto, festeja seus 20 anos com a adesão de 19 países. Mas trata-se de um casamento de interesses, não de amor.

Para Bertoncini, as disfunções no seio da UE vão além das disputas entre seus integrantes ou com as instituições de Bruxelas. São reflexos também de governos minoritários emergidos da erosão eleitoral dos partidos políticos tradicionais e pressionados pelas revoltas dos cidadãos.

– É verdade que países do Norte ou da Europa Central se portam de maneira satisfatória economicamente, mas poucos vão bem politicamente. Vê-se muitas instabilidades políticas e contestações, como na Alemanha e na França. O governo espanhol (do socialista Pedro Sanchez) é frágil. A Bélgica acaba de perder seu primeiro-ministro (o premier Charles Michel apresentou sua renúncia no último dia 21). Mesmo na Itália, o poder é singular (a coalizão dos ultraconservadores da Liga Norte, de Salvini, com os antissistemas do Movimento 5 Estrelas, de Luigi Di Maio). É difícil fazer funcionar a UE se os Estados membros são fracos politicamente e também economicamente.

As eleições europeias, em maio, vão animar os debates políticos nacionais. Embora sem condições de obter a maioria no Parlamento Europeu, as forças populistas podem, segundo pesquisas de opinião, alcançar vitórias políticas e ser capazes de influenciar os programas de partidos de governo.

– O Partido Popular Europeu (PPE, bloco das legendas conservadoras) se arranjou para manter sob sua sigla o partido do premier húngaro Viktor Órban (o ultranacionalista Fidesz), ao preço de uma certa hipocrisia – diz Daniel Cohen. – Não haverá uma lista populista, exceto a que será constituída na França pela Reunião Nacional (RN), de Marine Le Pen (França), e pela Liga italiana de Salvini. Sondagens indicam que se os coletes amarelos decidirem disputar o pleito, sua formação política obteria votos da extrema-direita e da esquerda radical na França, numa generalização do modelo italiano. Esse é o próximo movimento a ser acompanhado na Europa.

Em seu relatório de novembro, a Comissão Europeia revisou para baixo as previsões de crescimento da maioria das economias da UE em 2019. François Bourguignon, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, na sigla em francês) ressalta que não é apenas a Europa, mas o mundo que reavalia negativamente seus índices de PIB. As economias foram desaceleradas, segundo ele, em parte pela política americana e sua constante ameaça de guerra comercial com a China, e nesse contexto a Europa também está sujeita a inquietudes e fragilidades.

– Estamos numa situação particular. Não se sabe qual será o resultado final do Brexit. Não se sabe como ocorrerá a mudança de governo na maior economia do continente, a Alemanha (a chanceler Angela Merkel deixará o cargo em 2021). Há os acontecimentos na Itália, na França. Isso tudo não estimula um grande otimismo. Mas o que me torna mais pessimista é a ampla revolução tecnológica que está por vir, e que fará estragos bem mais graves do que se viu até agora com a globalização. Talvez estejamos a alguns anos de uma mudança de sociedade, e infelizmente os problemas de hoje nos impedem de mirar o futuro e de nos prepararmos para isso.

Olivier Damette, da Universidade de Lorraine, define as recentes turbulências francesas, deflagradas pelo imposto carbono, como a primeira de uma série de crises de transição energética e ecológica que deverá eclodir na Europa:

– As crises ligadas aos recursos naturais e ao clima atingem, em geral, os países em desenvolvimento. O dado novo é que passarão a chegar, de forma indireta, aos países desenvolvidos. Nos anos futuros, se terá cada vez mais crises sociais relacionadas ao clima, de conflitos e violências, inclusive entre países, se não forem rapidamente implantadas políticas adequadas para compensar as populações mais pobres.

Retornar às moedas nacionais, a guerras cambiais e altos riscos inflacionários não parece ser a melhor alternativa, mas, para Daniel Cohen, a zona euro permanece numa situação “muito delicada” nestes tempos rebeldes:

– Por enquanto, não se tem outra coisa a oferecer ao povo do que continuar na redução dos déficits públicos. Se não houver formas de permitir investimentos no futuro, para reencantar um pouco o projeto europeu, penso que as pessoas vão se cansar destas políticas de austeridade que lhes são impostas há cinco anos.

Se depender do crescente ruído das ruas e dos protestos nas urnas, o cansaço já chegou.

Michael Jackson revive na arte contemporânea em mostra no Grand Palais

“Trata-se da primeira exposição abordando Michael Jackson, sob este ângulo até então ignorado, por meio de seu impacto, ainda muito forte hoje, na arte contemporânea”, diz Nicholas Cullinan, curador da exposição. ©Fernando Eichenberg/fotos das obras e da mostra

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – Certa vez, perguntado sobre que personalidade, morta ou viva, gostaria de encontrar por apenas uma hora, Michael Jackson respondeu: Michelangelo. “Sempre pensei que era o artista mais fabuloso, e eu amo arte. Penso que se pudesse encontrar alguém do passado, seria ele. Acredito que entendi o que ele queria dizer e fazer, mesmo que tenha sido criticado. Era um verdadeiro artista. Teria gostado de sentar e conversar com ele”, disse. Amante e colecionador de arte –  do barroco italiano ao universo de Walt Disney, passando por Degas e Norman Rockwell, entre tantos outros -, Michael Jackson não escondia sua predileção por Michelangelo, inclusive recorrendo com frequência à citações do gênio italiano do Renascimento: “Sei que o criador partirá, mas sua obra sobreviverá. Por isso, para escapar da morte, procuro acorrentar minha alma ao meu trabalho” era uma de suas preferidas. Em suas turnês europeias, o ídolo pop não perdia oportunidades para fazer visitas privadas na Capela Sistina, na Galleria degli Uffizi, no Museu do Louvre ou no Castelo de Versalhes.

 

 

 

 

 

 

Em “Michael Jackson: On the Wall” (referência ao álbum Off the Wall, de 1979), exposição que abre nesta sexta-feira (23/11) no museu do Grand Palais, em Paris, o ícone e celebridade mundial, uma das personalidades culturais mais influentes do século XX, morto de uma overdose acidental em 2009, se torna ele próprio um objeto de arte. A mostra, apresentada anteriormente em Londres, na National Gallery (de junho a outubro passados), reúne 121 obras, dos anos 1980 até hoje, de cerca de 40 artistas das mais variadas nacionalidades que se inspiraram das várias facetas icônicas do músico, cantor e dançarino para suas criações, entre pinturas, esculturas, fotos e instalações de vídeo. Segundo o curador Nicholas Cullinan, a ideia foi abordar o impacto e a influência de Michael Jackson no mundo da arte contemporânea.

 

 

 

 

 

 

Não faltam obras de Andy Warhol, um dos primeiros a usar a imagem idolatrada de Michael Jackson, com sua célebre capa da revista Interview, em 1982. Mas também estão presentes criações de artistas como David LaChapelle, Keith Haring, Paul McCarthy, Yan Pei-Ming, Grayson Perry, Kehinde Wiley, Candice Breitz, Isa Genzken, Dara Birnbaum, Rita Ackerman, Mark Flood, Dawn Mellor, Todd Gray, Faith Ringgold, Mark Ryden, Gary Hume, Isaac Lythgoe, Jonathan Horowitz, Mr. Brainwash, Sam Lipp, Hank Willis Thomas ou Lorraine O’Grady. A notada ausência cabe a Jeff Kons e sua obra “Michael Jackson and Bubbles”, de 1988, cujos proprietários dos três exemplares existentes recusaram o empréstimo para a exposição.


A mostra permanece no Grand Palais até 14 de fevereiro e depois seguirá para Bonn, na Alemanha, e Espoo, na Finlândia.

Guerrilheiros da memória: a luta de um casal francês para colocar na cadeia genocidas de Ruanda

Dafroza e Alain Gauthier combatem há 20 anos a impunidade dos participantes do genocídio de Ruanda. © Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG / REVISTA ÉPOCA

REIMS – À primeira vista, Alain e Dafroza Gauthier formam um casal de aposentados em uma vida pacata e aprazível em Reims, a capital do champanha no nordeste da França. Ela, 64 anos, ex-engenheira química, e ele, 69, ex-professor de francês, residem em uma casa de amplas janelas e um belo terraço, onde costumam receber a visita dos três filhos, de 38, 35 e 30 anos. Mas, além das aparências, seu cotidiano se assemelha a uma complexa e interminável trama detetivesca. Há cerca de 20 anos, o casal Gauthier vive seus dias mergulhado em uma única missão: desmascarar na França suspeitos de terem participado do genocídio de Ruanda, em 1994, e denunciá-los à Justiça.

Estima-se em cerca de 800 mil o número de vítimas da violência perpetrada pelas milícias da maioria étnica hútu contra a minoria tútsi no país africano, num período de 100 dias entre abril e julho de 1994. Em novembro do mesmo ano, o Conselho de Segurança das Nações Unidas instituiu o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TIPR), com sede em Arusha, na Tanzânia, que teve suas atividades encerradas em 2015. Alain e Dafroza debutaram em 1997 suas investigações sobre eventuais genocidas foragidos em território francês. Em 2001, para aumentar as chances de alcançarem seus objetivos, criaram a associação Coletivo de Partes Civis para o Ruanda (CPCR), responsável, até hoje, pela abertura de 25 processos na Justiça francesa.

Nascida em Butare, no sul de Ruanda, Dafroza fugiu para o Burundi aos 19 anos, na onda de perseguições aos tútsis no pogrom de 1973. Após sete meses, conseguiu se juntar na Europa ao seu irmão mais velho, refugiado político na Bélgica desde 1961. Alain trocou seu serviço militar, aos 22 anos, pelo programa de cooperação em um país estrangeiro, e partiu, em 1970, para Ruanda como professor de francês, na cidade de Butare. No final de sua temporada de dois anos, lecionou na escola em que estudava Dafroza. Em 1974, já vivendo na Bélgica, ela visitou um amigo comum no sul da França, um padre que haviam conhecido em Ruanda. “Ele me avisou que Dafroza viria visitá-lo, e me perguntou se não gostaria de revê-la. Eu morava a uma centena de quilômetros, e fui. Logo depois, nossa história começou. Faz 44 anos que nos conhecemos e 41 que nos casamos”, conta Alain, sentado ao lado da esposa em um banco no ensolarado pátio de sua casa em Reims. Em 1977, ela obteve a nacionalidade francesa graças ao casamento.

Os anos se passaram, com viagens regulares da família a Ruanda para visitar a mãe de Dafroza, Suzana Mukamusoni, e familiares (o pai havia morrido nos massacres de Gikongoro, em 1963). “Em 1989, foi a última viagem que fizemos todos juntos, com nossos três filhos. A guerra civil eclodiu em outubro de 1990, com o ataque da FPR (Frente Patriótica de Ruanda) pelo norte, e tudo ficou mais difícil”, recorda ela.

Célebre imagem feita pelo fotógrafo americano James Nachtwey dos machetes utilizados nos massacres em Ruanda. © Reprodução / James Nachtwey

Dafroza retornou sozinha a Ruanda em 1994, um mês antes do início do genocídio, deflagrado após o atentado de 6 de abril que vitimou o presidente hútu Juvénal Habyarimana. Sua mãe estava na casa de uns primos, na capital Kigali. “Cheguei no final de fevereiro, num dia de incrível violência. Havia um comício do MDR (Movimento Democrático Republicano, governista) no estádio de Nyamirambo, nos arredores de nosso bairro. Na saída, foi um delírio. As casas dos tútsis eram alvos de pedradas, insultos. E não se parou mais, houve mortes nos dias seguintes, foi horrível. Fiquei apenas uma semana, fui embora no começo de março, minha mãe pediu que partisse para não correr riscos“, relata.

Os massacres genocidas iniciaram no dia 7 de abril. No dia 8 pela manhã, sua mãe, que havia se refugiado numa igreja, foi executada pela milícia hútu com dois tiros nas costas, juntamente com outros tútsis. Foi Alain quem lhe deu a notícia, na tarde do mesmo dia, após ter falado por telefone com o padre da paróquia. Dafroza represa a voz e mareja os olhos ao recordar a morte da mãe, então com 70 anos: “Para mim, é uma lembrança muito sofrida. Naquela viagem, foi a última vez que a vi. Foi difícil perceber como éramos impotentes, que nada podíamos fazer. É muito duro”, desabafa.

Quase todos seus familiares morreram durante os 100 dias de violência. Em 10 de junho, sua prima Geneviève e outros tútsis foram queimados vivos numa fossa comum, com pneus embebidos de gasolina. “Ficamos três meses pendurados no telefone – lembra Alain. Recebíamos muitos fax, chamadas do Hotel des Mille Collines, em Kigali, onde havia muitos refugiados tútsi. Muitas pessoas nos pediam socorro, mas não pudemos fazer nada de concreto, a não ser organizar manifestações, alertar a mídia, denunciar o papel da França“.

O casal viajou novamente a Ruanda em 1996 e 1997. Na segunda vez, colheram depoimentos de sobreviventes da igreja Sainte-Famille, em Kigali, para o processo do padre Wenceslas Munyeshyaka, refugiado na França e acusado de cúmplice de genocídio. Em 21 junho deste ano, passadas mais de duas décadas, a Justiça francesa arquivou o processo por insuficiência de provas. Em 2001, ocorreu na Bélgica o primeiro grande julgamento contra suspeitos do genocídio de Ruanda refugiados no país. Pela primeira vez em júri popular, foram julgados, e sentenciados culpados com penas de 12 a 20 anos, quatro ruandeses originários de Butare, cidade natal de Dafroza: um ex-ministro, um professor universitário e duas religiosas. Alain e Dafroza acompanharam todo o processo no tribunal de Bruxelas, e ao final decidiram criar sua associação. “A partir dali nosso trabalho realmente começou – conta Alain. Desde que tínhamos conhecimento de um nome suspeito aqui na França, partíamos a Ruanda em busca de provas. Investigávamos, tentávamos obter testemunhas, depois entregávamos todo o material aos nossos advogados, que, então, encaminhavam à Justiça francesa”.

Os nomes de possíveis genocidas lhes chegam de diferentes maneiras, inclusive por cartas anônimas depositadas em sua caixa de correio. Sua primeira vitória veio em dezembro de 2016, na condenação em segunda instância de Pascal Simbikangwa, ex-membro do serviço de inteligência do governo ruandês, alcunhado de “Torturador”, a 25 anos de prisão por genocídio e cumplicidade de crimes contra a humanidade. No último 6 de julho, Tito Barahira e Octavien Ngenzi, ex-prefeitos de Kabarondo, foram sentenciados em Paris à prisão perpétua pelas mesmas acusações, num processo de dois meses de duração que teve a audição de cerca de 70 testemunhas de Ruanda.

Apesar do veredicto favorável à sua causa, Dafroza experimenta um gosto amargo na vitória: “No dia da sentença, me digo que, enfim, essas pessoas vão para o lugar que merecem, a prisão. Mas os assassinos nunca pediram perdão. Eles mentem, negam até o fim, desprezam as vítimas. São como os negacionistas, que dizem que as câmeras de gás do Holocausto não existiram. Dá vontade de gritar, mas não se pode, pois se está num tribunal. O que mais dói é ouvir da boca deles essa negação. Que aos menos nos dissessem uma parte da verdade, para nos confortar. Nos processos populares, eles pediram perdão ao Estado ruandês, a Deus, mas não aos sobreviventes e familiares das vítimas. Por que os perdoaríamos?”.

Em cerca de 20 anos, no entanto, ocorreram apenas três condenações. O casal também sofreu reveses na Justiça. Houve três arquivamentos por falta de indícios, além de um falecimento antes do julgamento. “O surpreendente é que a Justiça francesa não esteja na iniciativa desses processos. Isso começa a ocorrer só agora. Além disso, apesar dos mandados de prisão internacional emitidos por Ruanda, os tribunais franceses sempre rejeitaram as extradições, houve 42 rejeições”, lamenta Alain. Dafroza acredita que, nos anos futuros, a tarefa será ainda mais complicada para sua associação: “O tempo faz seu caminho, e encontrar testemunhas 25 anos depois é cada vez mais difícil. E com nossa pequena estrutura, não temos meios de fazer uma investigação como se deve. Contamos, sobretudo, com nossa vontade”.

Neste ano, Alain e Dafroza contabilizarão um total de quatro viagens a Ruanda  para realizar suas investigações. A cada vez, permanecem entre um e dois meses no país. O CPCR conta com a ajuda financeira de cerca de 200 membros, mas, principalmente, com doações de organismos e fundações. “Tivemos, recentemente, um dom de € 94 mil de uma fundação da Dinamarca, o que nos permitiu passar um ano tranquilo. A questão financeira resta crucial, mesmo que não paguemos nossos advogados como merecem”, revela Alain.

As dificuldades de sua cruzada não se restringem ao trabalho de campo investigativo. O casal recebe constantes ameaças pessoais, em tentativas de intimidação para que cessem sua caça aos genocidas de 1994. Segundo eles, as manifestações foram virulentas nas redes sociais durante os julgamentos deste ano. Para Alain, no entanto, isso não é o que mais incomoda: “As ameaças atenuaram, já foi pior em anos passados. Já vimos pessoas rodarem em volta de nossa casa. Mas não vivemos no medo. Mais do que as ameaças, o que mais dói são as testemunhas da defesa que vêm depor nos processos e nos insultam”.

Comparados na França ao casal Serge e Beate Klarsfeld, reconhecidos militantes contra a impunidade de ex-nazistas e aclamados como “guerrilheiros da memória”, Alain e Dafroza não arrefecem seu combate. O casal trabalha, atualmente, em novos dossiês no intento de levar outros suspeitos de genocídio a julgamento. Entre eles, estão os processos em curso de Claude Muyhayimana, ex-servidor municipal em Rouen; Sosthène Munyemana, ginecologista em Villeneuve-sur-Lot; Laurent Bucyibaruta, refugiado em Saint-André-des-Vergers, e, mais recentemente, Thomas Ntabadahiga, habitante de Mulhouse.

Da França, acusada de apoiar o regime hútu durante o genocídio e de atuar de forma controversa na chamada “Operação Turquesa”, intervenção militar lançada no final de junho de 1994 com o aval da ONU, o casal espera um mea-culpa oficial. Em 2010, o então presidente Nicolas Sarkozy admitiu “erros de apreciação e políticos”, com “consequências absolutamente dramáticas”. É pouco, dizem eles, denunciando o poder do lobby militar e de antigos políticos que se recusam a “reconhecer o verdadeiro papel da França” nos massacres de Ruanda. Dafroza conta com o 25° aniversário do genocídio, no ano que vem, e com o atual presidente Emmanuel Macron para que se repare o discurso francês: “Macron é jovem, não está misturado a nada disso. É herdeiro dessa situação. Em nome das vítimas, ele nos deve um mínimo de reconhecimento. O que custa dizer que a França falhou? Já falhou outras vezes”.

Em Ruanda, segundo o casal Gauthier, embora a “política geral seja no sentido da reconciliação”, as cicatrizes do genocídio permanecem abertas. No dia a dia, o clima é complicado, diz Dafroza: “Serão necessárias três gerações para que as coisas se apaziguem, e que não se cruze na rua com os assassinos de seus pais. Genocídio é algo extremamente destruidor, pois não acaba apenas com os homens, mas também com toda uma cultura. Reconstruir, hoje, é uma palavra muito forte”.

LEIA AQUI O TEXTO PUBLICADO NA REVISTA ÉPOCA.

Fundação Henri Cartier-Bresson inaugura nova sede em Paris com exposição da fotógrafa Martine Franck

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – A Fundação Henri Cartier-Bresson, instalada desde sua criação, em 2003, no bairro Montparnasse, muda de endereço em Paris. Seus novos espaços, de acabamento recém-finalizado, serão abertos ao público nesta terça-feira, dia 6, no número 79 da rue des Archives, em pleno bairro Marais. A nova Fundação inaugura com uma exposição retrospectiva da fotógrafa Martine Franck (1938-2012), em cartaz até 10 de fevereiro.

Praia, aldeia de Puri, Índia, 1980. ©Martine Franck/Magnum Photos

Belga, nascida em Anvers, Martine Franck cresceu nos Estados Unidos e estudou na Inglaterra, Espanha e França. A descoberta da fotografia se deu em uma viagem iniciática ao Oriente (China, Japão, Índia, Nepal, Camboja, Afeganistão, Paquistão, Irã), em 1963, em sua maior parte na companhia de sua amiga Ariane Mnouchkine (que no ano seguinte fundaria o Théâtre du Soleil). Fotógrafa independente, teve seus trabalhos publicados em veículos como Life, New York Times e Vogue, e trabalhou nas agências Vu, Viva (que ajudou a fundar) e Magnum. Amiga de Michel Foucault, Balthus, Pierre Boulez, Marc Chagall ou Pierre Alechinsky, conheceu o célebre fotógrafo francês Cartier-Bresson (1908-2004), trinta anos mais velho do que ela, em 1966, e se casaram em 1970. Cartier-Bresson, Martine Franck e a filha do casal, Mélanie, criaram juntos a fundação, inaugurada pouco menos de um ano antes da morte do fotógrafo.

Piscina concebida por Alain Capeillères, Le Brusc, 1976. ©Martine Franck/Magnum Photos

“Uma fotografia não é necessariamente uma mentira, mas também não é a verdade. É preciso estar pronto a saudar o inesperado”. Martine Franck”

Exposição Pinturas do Imaginário, Simbolistas e surrealistas, tela de Paul Delvaux, Grand Palais, 1972. ©Martine Franck/Magnum Photos

“O aparelho é em si uma fronteira, só se consegue passar para o outro lado se esquecendo a si mesmo, momentaneamente”. MF

Tory Island, Donegal, Irlanda, 1995. ©Martine Franck/Magnum 

“O que me espanta na fotografia é que há uma vontade de compreender, de se compreender. É uma busca incessante da vida”. MF

Martine Franck fotografada por Henri Cartier-Bresson, Veneza, Itália, 1972. © Henri-Cartier-Bresson/Magnum Photos

“Eu me sinto interessada pelo que se passa no mundo e implicada em tudo que me rodeia. Não quero somente ‘documentar’, quero saber porque tal coisa me incomoda ou me atrai, e como uma situação pode afetar a pessoa envolvida. Não procuro criar uma situação e não trabalho nunca em estúdio; busco, sobretudo, a compreender, a apreender a realidade. Eu encontrei na fotografia uma linguagem que me convém”. MF

Martine Franck e Henri Cartier-Bresson, numa das fotos projetadas num diaporama à entrada da exposição. © Reprodução

A partir de 21 de fevereiro, a Fundação exibirá uma mostra do fotógrafo sul-africano Guy Tillim, laureado do prêmio Henri Cartier Bresson 2017. Na sequência, de 13 de junho a 25 de agosto, haverá uma exposição do escritor e fotógrafo americano Wright Morris (1910-1988). De 4 de setembro a 17 de novembro, o homenageado será o próprio Cartier-Bresson, com uma seleção de suas fotos feitas na China.

Um período rico em exposições em Paris: Picasso, Miró, Egon Schiele, Basquiat, Caravaggio, Mucha…

Obra de Jean-Michel Basquiat, na Fundação Louis Vuitton. Fotos: ©Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – O visitante deste outono parisiense não poderá se queixar da falta de opções de exposições de arte de qualidade. Neste final de ano, a capital francesa apresenta uma rara profusão de exuberantes mostras de reputados artistas em prestigiados museus e espaços de arte da cidade. Importantes obras de Picasso, Miró, Egon Schiele, Jean-Michel Basquiat, Caravaggio, Alphonse Mucha, entre outros nomes, estão concentradas na capital francesa, à mercê do curioso olhar do amador de arte.

PICASSO AZUL E ROSA

Picasso e seus intensos períodos azul e rosa, do tempo de sua fértil juventude artística, entre 1900 e 1906, invadiram o Museu d’Orsay com mais de 300 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas. Às vésperas de completar 19 anos, o artista espanhol desembarcou pela primeira vez em Paris em outubro de 1900, na estação de trem Gare d’Orsay (hoje o museu homônimo), junto com seu inseparável amigo Carles Casagemas, que arcou com a maioria dos custos da viagem. Até sua definitiva instalação na Cidade Luz, em 1904, alternou temporadas entre a França e a Espanha (Madri, Málaga e Barcelona). O suicídio de Casagemas, em fevereiro de 1901, provocado pelo sofrido amor de sua relação com Germaine, uma bailarina do Moulin Rouge, abalou o jovem pintor. “Foi pensando em Casagemas morto que comecei a pintar em azul”, revelou Picasso ao seu amigo Pierre Daix.

Após três anos, o azul predominante aos poucos foi cedendo lugar ao rosa, bege e ocre, tonalidades presentes em seu célebre ciclo dos “Saltimbancos”. O Museu d’Orsay, graças a empréstimos de outros museus pelo mundo, conseguiu reunir em um espaço de 1.500m2 obras-primas desta extraordinária fase do Picasso, em uma excepcional exposição, aberta ao público até 6 de janeiro de 2019.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como bônus, o Museu Picasso apresenta até 13 de janeiro uma exposição conceitual que interroga a noção de “obra-prima” no trabalho criativo do pintor espanhol. E o Studio Willy Rizzo expõe, até 12 de janeiro, cerca de 40 fotografias da intimidade de Picasso, feitas pelo próprio Willy Rizzo ao longo dos anos.

SCHIELE E BASQUIAT

Já a Fundação Louis Vuitton, museu de arte moderna projetado pelo arquiteto Frank Gehry, promove um efêmero encontro entre dois grandes artistas dos séculos XIX e XX, de carreiras fulgurantes e mortes precoces: o austríaco Egon Schiele (1890-1918), vítima fatal da gripe espanhola aos 28 anos de idade, e o americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988), morto aos 27 anos de overdose, apresentados em duas mostras independentes. Dieter Buchhart, curador das exposições, assinala, no entanto, “correspondências” entre os dois artistas, dotados de um “traço único e verdadeiramente existencial”. Segundo ele, Schiele e Basquiat são “dois cometas que nunca caíram na abstração e que contam a experiência universal da vida, vivida como um intenso combate”. Dois terços das obras exibidas nas duas mostras (mais de 100 de autoria de Schiele e cerca de 120 de Basquiat) provêm de colecionadores privados, muitas delas expostas pela primeira vez ao grande público, que poderá admirá-las até 14 de janeiro de 2019.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MIRÓ

O Grand Palais reservou suas nobres e amplas salas para uma importante retrospectiva de mais de 150 obras essenciais do artista espanhol Joan Miró (1893-1983), em quase sete décadas de carreira, de 1916 até sua morte, aos 90 anos, no dia de Natal. Miró dizia que não sonhava durante o sono, mas sim trabalhando. Para o curador da exposição, o historiador de arte Jean-Louis Prat, o artista “nos fez sonhar com ele ao inventar um mundo absolutamente único”. “As pessoas compreenderão cada vez melhor que eu abria portas para um outro futuro, contra todas falsas ideias e fanatismos”, disse, certa vez, o pintor. A exposição poderá ser visitada até 4 de fevereiro de 2019.

 

 

 

O Grand Palais propõe ainda, até o dia 21 de janeiro, a descoberta da exuberante Veneza do século XVIII, com telas de Canaletto (1697-1768), Francesco Guardi (1712-1793) ou Gianbattista Tiepolo (1696-1770), e uma cenografia que destaca ainda o luxo dos palácios, o espetáculo e a música da época na icônica cidade italiana.

MUCHA

Personagem da Belle Époque, protagonista da Art Nouveau francesa e percursor do moderno cartaz publicitário, o artista tcheco Alphonse Mucha (1860-1939) tem sua obra exposta no Museu Luxemburgo, até o 27 de fevereiro. Pode-se ver seus famosos cartazes de Sarah Bernhardt, mas também facetas menos conhecidas de sua obra, em torno de sua busca pela espiritualidade (foi introduzido ao ocultismo pelo dramaturgo sueco August Strindberg) e pela identidade eslava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Na foto acima à direita, o pintor Gauguin tocando harmônio no ateliê de Alphonse Mucha, em Paris, em 1893.

CARAVAGGIO

No Museu Jacquemart-André, o homenageado é o pintor italiano Caravaggio (1571-1610), com a exposição “Caravaggio em Roma, amigos e inimigos”. A mostra, em exibição até 28 de janeiro, conta com dez obras-primas de seu período romano, confrontadas a criações de outros artistas de sua época. Uma dezena de telas pode parecer pouco, mas o número é enorme considerando que são conhecidas apenas cerca de 60 obras do célebre pintor que levou ao extremo o chamado chiaroscuro (claro-escuro), técnica convertida no DNA de sua breve carreira, encerrada com sua morte aos 39 anos.

TRÊS EM UM

No Centro Pompidou, três mostras merecem a atenção, segundo as preferências do visitante. O cubismo é o grande tema de uma das exposições, com um panorama do movimento em Paris, cidade em quem surgiu, entre 1907 e 1917. Há Picasso e Georges Braque, considerados como os iniciadores do movimento, mas também Gauguin, Cézanne, Delaunay, Fernand Léger, Marcel Duchamp, Picabia e André Derain, entre tantos outros nomes, em um total de 300 obras exibidas até o dia 25 de fevereiro.

Em outro espaço, até 31 de dezembro, é possível visitar a retrospectiva da obra do renomado arquiteto japonês Tadao Ando, um autodidata que em 1965 interrompeu sua carreira de boxeador para se formar na Europa por meio da observação. Um de seus projetos mais conhecidos é a Igreja da Luz, em Ibaraki, no Japão, no qual criou uma cruz de luz no concreto.

Por fim, o Pompidou exibe ainda, até o dia 10 de dezembro, a maior retrospectiva já consagrada ao artista austríaco Franz West (1947-2012), com cerca de 200 obras reunidas.

HQ E ARQUEOLOGIA

Para quem aprecia histórias em quadrinhos e visitar o Museu Louvre, a Petite Galerie (espaço de educação artística e cultural do museu) exibe até 1° de julho de 2019 uma mostra que propõe um diálogo entre a arqueologia e a HQ. Uma centena de obras são apresentadas junto com uma seleção de álbuns de HQ de autores inspirados pela arqueologia, como Enki Bilal, Nicolas de Crécy ou Jul.

JAKUCHU

Embora já tenha sido encerrada no mês passado, vale o registro da exposição do japonês Ito Jakuchu (1716-1800), com seus trinta rolos de seda pintados com motivos da natureza. A obra “Imagens do reino colorido dos seres vivos”, adquirida pela casa imperial do Japão em 1889, só se tornou visível ao público no início dos anos 2000, e até então só havia saído do país uma única vez, em 2012, para ser exibida na National Gallery, em Washington. O museu Petit Palais obteve o empréstimo excepcional da extraordinária obra pelo período de um mês.

E ainda vem por aí uma exposição sobre a influência e o impacto cultural de Michael Jackson no campo da arte contemporânea desde os anos 1980, com obras de mais de 40 artistas (Andy Warhol, David LaChapelle, Paul McCarthy, Yan Pei Ming, entre outros), a partir de 23 de novembro, no Grand Palais; uma retrospectiva da fotógrafa belga Martine Franck (1938-2012), para inaugurar o novo local da Fundação Henri Cartier-Bresson, de mudança para o bairro Marais, a partir do próximo dia 6, e uma exposição de mais de 250 desenhos do escultor Rodin, no Museu Rodin, também a partir do dia 6.

Chico Buarque afirma que PT cometeu muitos erros no governo, mas alerta para a ameaça à democracia com a possível eleição de Bolsonaro à presidência

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – Chico Buarque concedeu recentemente em Paris uma entrevista ao canal M6 da TV francesa sobre o embate político no Brasil às vésperas do segundo turno da eleição presidencial. A reportagem, exibida no telejornal da emissora ontem à noite, revelou apenas alguns segundos do total de 25 minutos da conversa do compositor e escritor com a emissora francesa. Aqui a quase íntegra da entrevista.

O DISCURSO DE BOLSONARO

“Bolsonaro é um fascista. Todos seus discursos e pronunciamentos, desde o início de seu tempo de deputado, são próximos do fascismo, para não dizer do nazismo. Ele prega o extermínio dos comunistas, a perseguição aos homossexuais, feministas, índios, quilombolas. Ele é uma ameaça também para as florestas. É aliado das igrejas neopentecostais mais fundamentalistas, dos parlamentares favoráveis ao porte de armas. O problema da violência é muito forte em todo o país, devido à miséria, ao desemprego e também ao combate entre a polícia e os traficantes. Um traficante morto é substituído por outro no dia seguinte, e o tráfico continua, porque a política de repressão às drogas não funciona. Há os conflitos entre a polícia e os traficantes, e no meio inocentes que são mortos. Se quer liberar as armas a pessoas que estão enraivecidas por diferentes razões. E pode-se imaginar que a polícia terá autorização para atirar mais, para matar mais do que já o faz hoje. Esse é o programa de Bolsonaro. E, além das ofensas nas redes sociais, já se começa a ver muito fortemente nas ruas agressões físicas. Se ele ganhar a eleição, haverá o ódio dos vencedores, que serão mais agressivos do que nunca.”

O VOTO EM BOLSONARO E OS ERROS DO PT

“O sucesso de Bolsonaro se explica por várias razões. Pelo desespero das pessoas, a miséria, a violência, e também pela campanha que vem desde a última eleição, vencida pela esquerda, em um resultado não aceito pela direita. E começou uma campanha anti-PT. A presidente eleita foi destituída, sem razões fortes o suficiente, e Lula foi preso. Até o primeiro turno da eleição, se tinha a esperança de que Lula seria liberado, considerando que seu processo judicial foi bastante duvidoso, e que os juízes que o condenarem não foram imparciais. Hoje, o país está dividido entre os que apoiam e se opõem a Bolsonaro, e entre os pró-Lula e os anti-Lula. O movimento anti-Lula é muito forte, o que fortalece a candidatura de Bolsonaro. Se argumentou que havia muita corrupção nos governos do PT, o que é verdade. Havia corrupção, como havia antes e há ainda hoje. Não se pode dizer que era uma exclusividade do PT. O PT cometeu erros em demasia no governo, e se tornou um partido como os outros – como dizem os outros -, com pessoas corrompidas. Mas conheço Lula há mais de 40 anos, e pessoalmente creio em sua honra. Em todo caso, a campanha funcionou. Se diz que a corrupção é culpa do Lula e do PT, e que tudo o que ocorre de ruim no Brasil é culpa da corrupção, portanto, é culpa do Lula. O desemprego, os problemas na saúde e na educação, é tudo culpa do Lula. E o PT se tornou a causa de todos os males. A corrupção é grave e deve ser combatida, mas não é a causa de todos os problemas do Brasil. Isso lembra um pouco a Alemanha dos anos 1930. Hoje, os petistas no Brasil são considerados como eram vistos os judeus na Alemanha. A culpa por todos os males da Alemanha, o desemprego, a inflação, era atribuída aos judeus. Pode-se fazer esta analogia sem dificuldade.”

A POLÍTICA DE BOLSONARO

“Se Bolsonaro for eleito, talvez, num primeiro momento, tentará se mostrar menos selvagem e mais civilizado. Temo que sua política não ajudará os mais desfavorecidos. E temo muito um aumento de atos violência. Ele vai dizer que não é culpa dele, que são milícias independentes, e que não se pode controlar todas essas pessoas. A luta nesta eleição foi muito desigual pela propagação de fake news por parte da campanha de Bolsonaro. Foi uma luta inglória. Eles têm todo o know-how do marketing que elegeu Donald Trump. Steve Bannon (ex-estrategista-chefe do governo Trump e mentor da retórica nacionalista que ajudou a eleger o presidente americano) se encontrou com o filho de Bolsonaro. E era preciso responder a cada fake news, que se sucediam sem parar. E quando Bolsonaro faz a defesa da tortura, as pessoas dizem: “Ele está brincando, não é sério, ele é assim, na verdade é um homem crente, pai de família, um homem justo”. E funciona.”

RISCO PARA A DEMOCRACIA

“Não pertenço ao PT, mas apoio Fernando Haddad. Hoje, não sou um apoiante do PT, mas da democracia, que está ameaçada no Brasil. E é um problema que diz respeito a todo continente. Não foi por acaso que, nos anos 1960-70, tivemos ditaduras militares no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai… E começou no Brasil. Com a eleição de um fascista no Brasil, é todo o continente que se aproxima desta via autoritária. E mesmo na Europa esta onda cresce, a extrema-direita se fortalece por todo o lado. Há um real risco para a democracia, sem nenhuma dúvida. Há uma urgência absoluta, temos uma chance para evitar o fascismo.”

HADDAD

“Haddad é um homem íntegro, honesto, um professor, e talvez polido e cultivado demais para estes tempos no Brasil. Tenho ainda uma esperança de que as pessoas tomem uma posição, não pela esquerda, mas… Estou pronto a renunciar a tudo que já disse, a todas minhas convicções, para dizer “Vamos pela democracia”, sejam as pessoas de direita, de centro ou de esquerda.”

CRÍTICAS

“Tenho sido muito criticado. É normal. Estou aqui para dar minha opinião, e sou criticável. Mas alguns dizem: “Ele é apenas um artista, não é um político” ou “Ele é um burguês, não pode falar pelo povo, porque é rico”. Isso é velho, conheço isso desde os anos da ditadura.”

Roman Krznaric: “A pergunta do século XX foi ‘quem sou eu?’, e a pergunta do século XXI deve ser ‘quem é você?'”

Roman Krznaric: “A questão é saber se vamos aprender a usar o mundo digital de uma forma que possa contribuir para a empatia, a tolerância e o respeito”. © Kate Raworth

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – A empatia pode ajudar a apaziguar o deletério clima político no Brasil e levar a transformações sociais no mundo? O filósofo australiano Roman Krznaric acredita que sim. Ao longo dos anos e de consecutivas obras, Krznaric se tornou um pensador e autor de sucesso, reconhecido arauto do movimento da filosofia prática, também chamada de filosofia popular. Em ensaios catapultados a best-sellers e traduzidos em mais de vinte idiomas – como “O poder da empatia”, “Como encontrar o trabalho da sua vida” ou “Carpe Diem – resgatando a arte de aproveitar a vida” -, o “pensador cultural”, um dos fundadores da The School of Life e ex-professor de Sociologia e Política da Universidade de Cambridge, reivindica a aplicação dos ensinamentos filosóficos na vida cotidiana, num resgate do tempo dos antigos gregos.

Krznaric teme o crescimento dos extremismos políticos, alerta para os reais e potenciais perigos dos rápidos avanços tecnológicos e das redes sociais e, nestes paradoxais tempos de muitas conexões e de enorme incomunicação, receita empatia e carpe diem para que as relações se tornam mais humanas. Além do aperfeiçoamento individual, seu objetivo maior mira na extensão dos clubes de filosofia prática, que pregam a promoção da inteligência emocional, em verdadeiros centros propagadores de mudanças sociais e políticas.

Em turnê pelo Brasil – com passagens pelo Rio, São Paulo, Porto Alegre a Chapada dos Veadeiros- , Roman Krznaric retorna nesta-sexta-feira para Londres, onde vive com sua mulher e seus filhos gêmeos.

Você aterrissou no Brasil em pleno período de campanha eleitoral, em um clima de acirrada polarização política, de agressões nas ruas e propósitos acusatórios nas redes sociais e nos grupos de Whatsapp. Como você está vendo tudo isso?

É incrível chegar no Brasil agora e sentir a polarização política por tudo. Não sou um expert em política, e não pretendo sê-lo, mas é o tipo de situação que divide profundamente. Não importa quem saia o vencedor nesta eleição, o país necessitará de um tipo de tratamento para as pessoas de lados políticos opostos. É um pouco como em situações de pós-guerra. Após uma guerra civil, é necessário reagrupar novamente a sociedade. E a empatia é um tipo de cola para unir novamente a sociedade. Como se você calçasse os sapatos de outra pessoa e pudesse entender como é a vida dela, como ela sente, pensa e vê o mundo. É a possibilidade de um pouco de humanidade. Isso é vital para a sociedade, manter tolerância e respeito, e que não seja comandada pelo ódio. Empatia é importante nestes momentos da História.

Você se surpreende, por exemplo, com as reações nas redes sociais provocadas pela atitude de Roger Waters em seus shows no Brasil, criticando os extremismos e o candidato Jair Bolsonaro?

Esse é um dos problemas das redes sociais. Quando uma eleição ocorre no Whatsapp, no Facebook e no mundo online, e as pessoas só dão atenção a quem partilha as mesmas opiniões que as delas. Elas não estão conectando com pessoas diferentes delas. Os brasileiros passam, em média, três horas e vinte e sete minutos por dia nas redes sociais. Quando tiverem 75 anos, terão passado nove ou dez anos de suas vidas online. É a maneira como estão formando suas personalidades – ou personalidades eletrônicas. E na cultura online, você pode ser anônimo. Pessoas me criticam no Youtube escrevendo coisas horríveis que elas jamais me diriam mirando nos olhos. Isso é uma significativa mudança política.

Na sua opinião, a internet e as mudanças tecnológicas atuam a favor ou contra a empatia e o carpe diem?

Não há nada inerente à tecnologia que seja anti ou pró empatia. Na tecnologia, somos como crianças aprendendo a caminhar. E ainda não somos muito bons nisso. No momento, permitimos Facebook roubar nossa atenção, nosso tempo. É uma lenta revolução em processo. A questão é saber se vamos aprender a usar o mundo digital de uma forma que possa contribuir para a empatia, a tolerância e o respeito. Há esperança. Houve este projeto, por exemplo, em que adolescentes brasileiros queriam aprender inglês de nativos do idioma. Mas eles não conheciam pessoas que tinham o inglês como língua materna. Então, esse projeto colocou-os em contato, via conexões de vídeo como Skype, com pessoas vivendo em lares de idosos em Chicago. Eram pessoas solitárias, querendo fazer amigos, e falavam inglês. O projeto conectou esses dois grupos e construiu empatia entre duas culturas. É algo muito simples. Há muito potencial para isso. Mas a maioria das plataformas de redes sociais nos conecta com pessoas semelhantes a nós e não com pessoas diferentes de nós. Não são projetadas para fomentar uma real curiosidade em relação a estranhos e a aprender com eles. Tento ser positivo em relação à tecnologia, mas, lá no fundo, não sou. Pessoas me solicitam para desenvolver um “aplicativo da empatia”, que seria “cool”. Na realidade, nós, seres humanos, somos o aplicativo da empatia. Vamos sentar e ter uma conversa. Não precisamos fazer isso num aplicativo, nós somos o aplicativo. Somos uma tecnologia afetiva para criar empatia.

Como você vê o desenvolvimento do movimento da “filosofia prática” hoje?

A filosofia prática realmente alcançou uma grande popularidade. A filosofia, finalmente, depois de ter sido sequestrada durante um século por acadêmicos e aprisionada nas universidades, voltou ao que os antigos gregos faziam muito bem, que era trazê-la para a vida do dia a dia. Penso que é algo positivo. É o que a The School of Life está fazendo, tentando transformar a inteligência emocional em um movimento. No meu trabalho, gosto de levar a filosofia popular a um grau acima, mais em transformação política e social. Esse é o meu projeto. No meu gabinete, tenho na parede um desenho de dois círculos que se sobrepõem. Num deles, está escrito “arte de viver”, e no outro, “mudança social”. Tento fazer meu trabalho no espaço onde os dois círculos se encontram. Empatia, por exemplo, é um tema sobre relações – com sua mulher, seus filhos, seus colegas de trabalho -, mas também sobre mudanças sociais e políticas, envolvendo pessoas diferentes de você e tentando criar tolerância na sociedade e desafiar estereótipos. Carpe diem trata de mudanças individuais e coletivas. Gosto de ver o movimento de filosofia popular indo nesta direção, porque na maioria das vezes trata muito do “eu, eu, eu”. A pergunta do século XX foi “quem sou eu?”, e a pergunta do século XXI deve ser “quem é você?”. Estou sempre numa dança entre o individual e o coletivo. Minha origem é como cientista político, e nos meus 20-30 anos pensava em como mudar as estruturas e instituições políticas. Depois, passei 15 anos trabalhando com filosofia popular, que trata mais sobre vida pessoal. Meu desafio intelectual é colocar essas duas coisas juntas.

As seções de obras de autoajuda e de desenvolvimento pessoal das livrarias estão em constante crescimento, em sua grande maioria centradas, como você mesmo assinala, no narcisismo, na busca obsessiva pela felicidade e no individualismo.

A indústria da autoajuda se desenvolveu a partir dos anos 1970, centrada no eu. Penso que há duas grandes razões para isso. Uma é que muito da autoajuda surgiu da psicologia e da psicanálise: “Olhe para dentro de si mesmo e você vai encontrar as soluções para a vida”. Isso encorajou um tipo de individualismo. Mas o individualismo também veio da cultura de consumo capitalista. Tudo se concentrou no eu, e perdemos a noção de que somos criaturas sociais. Mas penso que, hoje, isso está mudando. Gradualmente, se vê cada vez mais a autoajuda tratando de nosso lugar na sociedade, como parte integrante de comunidades, e de que descobrir a si mesmo é também descobrir outras pessoas. Meus escritos sobre empatia se tornaram populares em parte porque são um reconhecimento de que não basta olhar para dentro de si mesmo para encontrar as respostas sobre o significado da vida. Por isso que digo que necessitamos de uma combinação de introspecção e de “extrospecção”. Sócrates disse que para se viver uma boa vida é preciso olhar para si mesmo. Tudo bem, é uma boa ideia. Mas você também pode sair para fora de si mesmo, numa “extrospecção”, falar com pessoas de outras culturas, e é disso que trata a empatia.

Para você, as grandes mudanças na História ocorrem via transformações nas relações individuais...

Eu costumava pensar que a maneira de transformar a sociedade era mudando leis, instituições e políticas públicas. Mas olhando para a História, se nota que muitas mudanças fundamentais ocorreram por meio da forma como as pessoas se relacionam entre si, nas famílias, em comunidades, locais de trabalho. Muitas mudanças se deram da base para cima. Você pode ter vários acordos entre os líderes políticos, mas nunca vai realmente resolver os problemas da sociedade se, na base, as pessoas não se relacionarem com humanidade. Não digo que se deve jogar fora nosso individualismo. Seres humanos são em parte “homo empathicus” e “homo self-centricus”. Temos essa natureza dual. O problema é que a maioria das nossas instituições são construídas para o indivíduo, não para a sociedade. Educação, por exemplo. Nas escolas, há competições individuais. Um exame é feito individualmente, e você concorre com os demais. No mundo, precisamos cooperar com os outros. Isso ocorre também no trabalho, nas famílias. Por isso que defendo que se ensine empatia nas escolas, para incluir novos valores.

As redes sociais têm o nome de “social”, mas, em geral, tratam bastante do eu.

Sim, as pessoas compartilham no Facebook as grandes coisas que acontecem com elas. Mas as pessoas estão conectadas, existe um real aspecto social. Penso no movimento Occupy. Tudo começou online. A revista canadense Adbusters colocou o hashtag “occupywallstreet”, e em oito semanas se espalhou por 951 cidades e 82 países. E passou do online para o off-line, para as ruas. Há reais comunidades online. Por outro lado, muitos estudos mostram que quanto mais você se revelar narcíseo mais terá interações no Facebook.

Você diz que seu maior desafio é transformar estes clubes de filosofia em movimentos coletivos de mudanças sociais.

Esse é o meu ideal. Penso que o século XX foi a era do individualismo e que necessitamos recuperar os valores coletivos. Como sociedade, penso que estamos numa jornada. Leva tempo para criar esse tipo de transformação. Não penso que esses clubes de filosofia irão, de uma hora para outra, parar de falar sobre o individual. E nem devem. Somos também indivíduos, e temos de tomar decisões sobre nossas vidas, nossas relações pessoais. Mas penso que o anseio por valores coletivos está se expandindo. Vemos isso no crescimento das campanhas em torno do aquecimento global e outros movimentos que dizem respeito às futuras gerações. Claro que ainda há o eu e o individualismo, mas vemos cada vez mais pessoas questionando o nacionalismo ao mesmo tempo em que cresce o nacionalismo, como no Brasil, nos Estados Unidos, na Hungria. Os velhos tribalismos ainda são fortes, mas também há milhões de pessoas dizendo “Ei, minha visão é mais ampla do que apenas minha cidade ou minha nação”. Veja no campo econômico, por exemplo, os carros compartilhados, como o sistema de caronas BlaBlaCar. São pessoas compartilhando propriedade privada. Muitos jovens hoje já não compram carro. Tudo isso leva a criar uma sociedade e uma economia mais cooperativa e colaborativa. Mas, ao lado disso, vemos também o crescimento do narcisismo digital ou da extrema-direita. É uma luta social de valores opostos.

Para você, a terapia profissional e a filosofia acadêmica falharam em relação a uma demanda por soluções aos problemas da vida. Ambas teriam se distanciado do ideal dos antigos gregos, para os quais a filosofia deveria ser aplicada aos dilemas do cotidiano.

Penso que sim. Mas depende onde você se encontra em sua trajetória individual. Há um real valor em se questionar, se entender, o que faz, hoje, a filosofia popular. Mas penso que para muitas pessoas é uma via muito importante se envolver em outras coisas, como transformação social. Escrevi um livro chamado “Como encontrar o trabalho da sua vida”, sobre o significado e objetivos em seu percurso profissional, e que questiona a ideia de trabalhar apenas por dinheiro e status social. Talvez você possa encontrar um significado buscando um objetivo mais amplo, o que filósofos chamam de “razão transcendental”, para mudar o mundo, mesmo em pequena escala. As pessoas se dão conta de que a procura do significado tem de ser além do eu. Terapia pode ser algo útil para as pessoas questionarem suas prioridades, valores, e então abrir para algo novo, mais amplo. Mas para outras pessoas, só faz com que olhem cada vez mais para dentro de si mesmas, e acabam se perdendo.

Você ressalta que “carpe diem” é uma das mais antigas divisas filosóficas da História ocidental, do tempo do poeta romano Horácio, há 2.000 anos. Ao longo do tempo, o lema foi apropriado pela cultura popular e, como você lembra, virou canção da banda de heavy metal Mettalica, “Carpe diem baby”; foi tatuado no pulso da atriz Judi Dench para comemorar seus 81 anos, e sintetizou a mensagem do filme “Sociedade dos poetas mortos”, na voz do ator Rob Williams. O problema, na sua opinião, é que carpe diem foi, hoje, sequestrado pela cultura do consumo (Just Do It se tornou Just Buy It), pelo culto da eficiência (Just Plan It), pelo entretenimento digital (Just Watch It) e pelo movimento mindfulness (Just Breathe). Poderia explicar?

É um bom resumo do todo. A ideia de aproveitar o dia, carpe diem, como você disse, é muito antiga, de 2.000 anos, do tempo do poema de Horácio. Mas sempre houve várias formas de entender a ideia de carpe diem. Em inglês, é normalmente traduzido por “seize the day”. Em Brasil, na capa do meu livro está traduzido como “enjoy the day”, no sentido de apreciar os prazeres do momento. Mas o fundamento de todas as versões é a ideia de liberdade. E liberdade em relação à morte, no reconhecimento de que a vida é curta e o relógio está andando. A questão é como vamos usar a liberdade que conquistamos neste pouco tempo que temos, como vamos ser os autores de nossas próprias vidas. Era do que tratava o existencialismo. Qual o significado de liberdade? No tempo de Jean-Paul Sartre, havia a Segunda Guerra Mundial, e as ameaças à liberdade eram diferentes em relação a hoje. Ele estava preocupado com o stalinismo e a Igreja Católica, tudo o que impedia a liberdade política, sexual etc. Hoje, vemos outros tipos de ameaças. São estes sequestros que você citou. Just Do It se transformou em Just Buy It. Aproveitar o dia se transformou em aproveitar o cartão de crédito. Liberdade se tornou uma escolha entre marcas, entre Nike e Adidas, iPhone e Samsung. Há também a ideia da cultura digital, que substitui a experiência direta do mundo. Obviamente que se pode experimentar emoções reais online, se pode chorar ou rir, mas há uma diferença em assistir uma partida de tênis em Roland Garros e você mesmo disputar um jogo. Estamos perdendo essa experiência direta do mundo. Temos o Just Watch It, Just Tweet It, Just Share online. Mas também há ameaças políticas à liberdade, como estamos vendo com o crescimento dos extremismos no mundo. Por isso que digo que deveríamos passar do singular de carpe diem para o plural, o coletivo, aproveitar o dia juntos.

Por que você sugere que os jornais dominicais deveriam ter, além de uma seção de lifestyle, uma outra de deathstyle?

Costumo usar uma camiseta com as palavras morte (death) e liberdade (freedom), que estão muito conectadas. Penso que que os jornais deveriam ter uma seção de deathstyle porque na maioria das culturas se têm medo de falar da morte. As publicidades indicam que seremos jovens para sempre. Se você for ao México, no Dia dos Mortos, obviamente que se estará falando da morte, mas isso não ocorre na Inglaterra, nem na França. Se não trouxermos a morte para nossas vidas, de um modo saudável, vamos perder o potencial da vida existencial. Penso que seria uma boa ideia se a cada dia tivéssemos algo como uma “pausa de morte”: reservar alguns minutos para pensar na própria morte. Não pensar em você morto em um caixão, mas sim em que não vai estar aqui para sempre.

Nestes turbulentos tempos no Brasil, que leitura você recomendaria para os brasileiros?

Diria para não lerem um livro, mas talvez olhar algumas fotografias de Sebastião Salgado, um fotógrafo que capturou sem palavras diferentes vozes da sociedade. Diria para terem uma conversa com um estranho, um vizinho com o qual nunca tenham falado ou com o vendedor da banca de jornais. E falar com eles sobre vida, morte, amor, política, para além de uma conversa superficial, e tentar sair de seu pequeno mundo. Todos nós vivemos em um pequeno mundo. E essa conversa com um estranho poderá fazer mais por você do que qualquer livro, e mudar a maneira de ver o mundo. Essa é a aventura da vida, começar a questionar nossas crenças, para reconhecer os preconceitos e estereótipos que temos em relação aos outros. Livros fazem parte dessa jornada, mas espero que diálogos face a face também.

Como está a escrita de seu primeiro romance?

É um romance sobre empatia, e estou escrevendo também um novo ensaio, sobre “pensamento a longo prazo”. Raramente há políticos enxergando além da próxima eleição, em como criar uma civilização a longo prazo, tratando de questões como as mudanças climáticas, os riscos tecnológicos e todas essas coisas. Em resumo: enxergar além do período de uma vida.

Vai no sentido contrário de carpe diem

Em muitos aspectos, sim. É sobre enxergar longe. Algumas versões de carpe diem dizem respeito a viver o momento, mas outras se relacionam a aproveitar oportunidades. E podem ser oportunidades de alcançar objetivos de longo prazo. A mudança climática é um problema de longo prazo com uma urgência de fazer algo agora, numa ação de hoje para as futuras gerações.

A escrita de um romance é uma nova experiência para você.

É mais difícil para mim escrever não ficção do que livros de filosofia. Mas é uma boa maneira de explorar a política, de forma indireta. E se pode ser mais lúdico. O livro vai se chamar “Message to the gardener’s of England”. Na Inglaterra, há um programa de rádio aos domingos, às 14h, chamado “Gardener’s question time”, sobre jardinagem, com milhões de ouvintes. E escrevo sobre três jardineiros revolucionários que sequestram esse programa de rádio, e usam-no para passar mensagens subversivas e tornar os jardineiros do país em revolucionários políticos. É para ser um romance engraçado. Veremos.

R.I.P. Charles Aznavour (1924-2018)

Fotos © Fernando Eichenberg

Entrevistei Charles Aznavour às vésperas de sua viagem ao Brasil, em 2008, em meios aos shows de sua turnê comemoratriva dos 75 anos. Ele me recebeu na sede da editora de músicas Raoul Breton, no 67 bulevar de Courcelles,  em Paris, simpático, brincalhão, e sempre dedicado à sua paixão maior, a canção. 

Abaixo a entrevista, publicada no segundo livro de meu livro de entrevistas, “Entre Aspas 2” (ed. L&PM).

***

Aos três anos de idade, o pequenino Charles fez de forma inusitada sua estreia em cena. Filho de modestos artistas de origem armênia – o pai, Micha, era cantor, e a mãe, Knar, atriz -, ele, com sua irmã Aïda, costumava passar as noites brincando nos bastidores de teatros em Paris. Certa vez, antes do início de um espetáculo, entreabriu curioso as cortinas do palco e se viu, de repente, diante da plateia. Na hora, começou a cantar algo em armênio, logo recompensado por aplausos entusiastas. Nos camarins, os artistas pensaram que o público batia palmas porque estava impaciente, mas depois descobriram que havia uma “atração extra”. Naquele momento, o precoce e intruso cantor foi contaminado pelo vírus do palco.

Chahnour Vaghinag Aznavourian nasceu em Paris por acaso: seu pais aguardavam na cidade por um visto para emigrar para os Estados Unidos. Sua primeira apresentação artística, de contrato assinado, se deu aos nove anos de idade, e desde então nunca mais parou. O pequeno Charles se tornou o grande Charles Aznavour, considerado como um dos maiores e últimos chansonniers e crooners franceses, “autor de mil canções”.

O ano de 1946 foi importante para seu futuro. Foi quando conheceu Édith Piaf, de quem se tornaria secretário, amigo e confidente. Os dois se encontraram casualmente numa breve apresentação de Aznavour em um programa de rádio, na companhia de seu inseparável pianista Pierre Roche, um duo que perdurou por oito anos. Ao entrar no auditório do estúdio, se deparou com Piaf e Charles Trénet sentados na primeira fila. Ele tinha 22 anos. “Eu, que já tremia consideravelmente diante da uma plateia, agora tinha a perna direita que dava uma de Parkinson”, contou. Piaf não tardou a convidá-lo para abrir os shows de uma turnê e, mais tarde, ela o encorajou a iniciar uma carreira solo. E o aspirante a artista acabou se confirmando como uma estrela

Para marcar os 75 anos de sua ininterrupta carreira e o adeus às longas turnês, começou em 2006 a sua Farewell Tour, com passagem também pelo Brasil. Acompanhado de 17 músicos, um piano, um conjunto de cordas, um saxofone, um acordeão, uma flauta e duas coristas (uma delas sua filha, Katia, com quem faz um duo em Je voyage), interpretava canções de seu então mais recente álbum, Colore ma vie (gravado em Cuba, com o pianista Chucho Valdés), e grandes sucessos como La Bohème, Sa jeunesse, Les plaisirs démodés, Désormais, Emmenez-moi ou Hier encore.

Conversei com Charles Aznavour em Paris, na sede da editora de músicas Raoul Breton – à qual é fiel desde que começou a compor e a cantar -, pouco antes de sua viagem ao Brasil, na turnê dos 75 anos. Sentado a sua frente, lembrei da história que havia lido poucos dias antes em seu livro de memórias. Aos 24 anos, em 1948, ele decidiu fazer uma visita surpresa a Édith Piaf, e partiu rumo ao jazz, à Broadway e às comédias musicais dos Estados Unidos, junto com Pierre Roche. A dupla desembarcou no aeroporto internacional de Nova York sem dinheiro, sem passagem de volta e sem visto. As autoridades policiais, já com suspeição, conseguiram um tradutor para o interrogatório. “Por que vocês estão nos EUA?”, perguntaram. “Viemos encontrar Édith Piaf”, foi a resposta. A célebre cantora estava em turnê no Canadá, e nada podia fazer pelos amigos. Após algumas horas de espera, foram conduzidos a uma “comprida limusine escura”, e ele conta ter, por um momento, acreditado que receberia tratamento VIP. Na verdade, tratava-se de um furgão para transferi-los ao presídio de Ellis Island, detidos como imigrantes clandestinos.

No terceiro dia de prisão, foram levados para uma audiência num tribunal. O juiz recomeçou o questionário: “Por que vocês estão aqui? Têm a intenção de atentar contra a vida do presidente dos EUA? Pertencem a algum partido político? Qual a sua profissão?”. À última pergunta, Aznavour respondeu: “Nós compomos canções”. E lembrou que havia traduzido as músicas da comédia musical Finian’s rainbow, que fazia sucesso naquela época em Nova York. O juiz ordenou que cantasse alguns trechos, o que ele fez de bom grado. Resultado: receberam um visto de três meses, prorrogável se encontrassem trabalho. “Prova de que a música não somente amolece a moral como também os juízes”, contou Aznavour. Os dois retornaram a Ellis Island para recuperar seus pertences, sob os aplausos dos demais detentos, e debutaram sua aventura americana em um quarto alugado por US$ 7 a semana no modesto hotel Langwell, na rua 44. Aos 90 anos de idade em 2014, Charles Aznavour dizia já ter escolhido seu epitáfio: “Aqui jaz o homem mais velho do cemitério”.

A sua relação com o Brasil é forte, pois, como o senhor escreve em sua autobiografia, seu coração bateu pela primeira vez por uma brasileira, uma loira de olhos claros, chamada Graziela Fursman. O senhor tinha 12 anos de idade e, ela, 16 ou 17.

Não foi a primeira vez que meu coração bateu, foi a única! (risos). Mas eu era uma criança. Nunca tive mais notícias dela. Estávamos na mesma escola. Saíamos em grupo juntos, ela não morava longe da minha casa, mas acho que nunca soube que eu era apaixonado por ela. Que idade terá hoje? Uns 90 anos. Deve ter mudado bastante (risos). É engraçado você ter falado dela, fazia tempo que não a recordava.

Foi durante uma viagem ao Brasil, em um baile de caridade organizado pela mulher do então presidente Juscelino Kubitschek, a primeira-dama Sarah, que pela primeira vez o senhor teve a idéia de fazer recitais em vez de shows de cabaré.

Já estive no Brasil umas cinco ou seis vezes. Na primeira vez, me hospedei no Copacabana Palace, no Rio, e na época fazia shows de cabaré. Foi no Brasil, sim, que tive a idéia de fazer recitais, e peguei gosto. Cancelei todos os meus contratos de shows de cabaré, não queria mais. Meu pianista tocava tanto Bach como  jazz, e eu tinha o maior baixista do mundo, François Rabbath. Depois do Brasil, só fiz shows recitais.

E na sua primeira apresentação no Olympia, em Paris, havia ainda como atrações, além do saxofonista Sidney Bechet e do mímico Marcel Marceau, um balé brasileiro.

Sim, havia mesmo um grupo de dança brasileiro. Flertei bastante naquela época (risos). Mas o meu primeiro contato com a música brasileira foi por meio do rádio, pelo samba. Para mim, fazia parte da “música sul-americana”. Não era algo específico. Só se tornou específico a partir do momento em que conheci a bossa nova. Nesse momento, também dissociei o samba da América do Sul e passei a relacioná-lo ao Brasil. Os franceses não conhecem muito geografia. Para eles, o Brasil era a América do Sul. Não sabíamos o que era a América do Sul, a Central, a América Latina. E até hoje não sabemos. Mas eu gostava muito de Agostinho dos Santos, que morreu em um acidente de avião (em 1973, aos 41 anos). Ele cantava maravilhosamente bem.

O senhor teve algum tipo de influência da música brasileira?

Não tive uma influência direta da música brasileira, mas o Brasil influenciou musicalmente e ritmicamente a França. A França não inventou um ritmo, nem um estilo. Há grandes músicos franceses, melodistas formidáveis, mas a bossa nova é brasileira, o tango é argentino, a valsa é austríaca, o jazz é uma parte da África. Não se pode dizer que a França inventou um ritmo. Quando a bossa nova chegou, ela deu algo mais aos autores franceses. Possibilitava que quebrássemos as cadências. Era um ritmo que permitia adaptações. Eu muitas vezes adaptei. Eu me servi da bossa nova para minhas letras, como em Je t’attends, Entre nous e muitas outras, mesmo mais recentes. Fiquei surpreso agora em Cuba, porque  quis gravar uma bossa nova e não havia realmente como fazê-lo. Não é a mesma coisa. Toca-se melhor a bossa nova na França do que em Cuba.

O senhor fez também a melodia de Rendez-vous à Brasília (1960), com letra de Georges Garvarentz

Foi para me divertir. Eu havia voltado de uma viagem a Brasília. Eu me lembro perfeitamente da sala do teatro, toda branca, um pouco como uma geladeira. Felizmente que o público não reagiu como se estivesse numa geladeira (risos).

O senhor começou sua carreira aos nove anos de idade…

Foi a primeira vez que me apresentei num palco com um contrato assinado. Foi ali que começou e desde então nunca mais parei. Nunca parei de trabalhar, seja numa revue, numa peça de teatro, recitais, um papel no cinema. Desde 1933, nunca parei. São 75 anos de carreira.

Sua primeira apresentação como grande vedete no Teatro Alhambra, aos 33 anos, é considerada como um marco em sua carreira.

Não foi no Alhambra que conquistei o sucesso, mas foi lá que a imprensa foi obrigada a dizer que, sim, era possível. Durante seis canções nada aconteceu, foi na sétima que houve um estalo. Eu inventei algo. Na época não se fazia luz para o palco. Colocava-se apenas um projetor. Para a sétima música, eu tinha luzes especiais, que se mexiam, e além do mais a canção era boa, Je me voyais déjà.

Ao final do show, no entanto, o senhor temeu pelo pior, pois houve um pesado silêncio por parte do público.

Ao deixar o palco, tive tempo de dizer ao meu agente: “Amanhã mudamos de profissão”. Quando retornei, foi a primeira vez na vida que vi uma standing ovation. Não era costume. Depois, só fui ver isso de novo nos Estados Unidos. Hoje se faz isso para qualquer imbecil. Acho ridículo. Na tevê eles dizem “Bom dia, monsieur”, e “Ha ha ha ha”; “Bom dia, madame”, e batem palmas. É ridículo! Tornou-se algo artificial. Eu sinto repulsa por esse aspecto factício que se quer dar a uma profissão em que há cada vez mais jovens. Preparam-se esses jovens para um mundo artificial, e se eles entram no jogo, vão também se tornar artificiais. É preciso ter talento. É preciso de alguma forma evoluir. Por exemplo, o soap francês vem das telenovelas do Brasil. Mas evoluiu. Anteontem eu assistia a algo assim na tevê, e notei que houve uma evolução.

O senhor diz que estamos entrando na era do cada um por si, de não-relações, de vulgaridade, em um mundo no qual a vida perde valor. O senhor é pessimista em relação ao futuro da sociedade?

As pessoas querem de qualquer jeito se tornar célebres. Querem fazer amor com suas mulheres na tevê, para que os outros vejam. É uma vergonha. Hoje se faz qualquer coisa para aparecer na tevê. E eu que luto para não aparecer (risos). Não quero abrir minha casa para os outros. A vida privada é algo belo. Mas não sou pessimista. Veja a história da França. Um tipo de puritanismo apareceu no fim do século 18 e morreu no começo do século 20. Mas mesmo assim depois houve um recuo, e recomeçamos. As canções da época eram licenciosas, tudo era mais livre. E veio toda aquela poesia, com nomes que hoje quase não lembramos mais, como Jean Tranchant (1932-1942), Charles Trénet (1913-2001). Acho que um dia haverá um movimento que dirá: “Estamos fartos!”. Fartos de todo esse lado terrível da tevê. Eu eduquei meus filhos de outra maneira.

Uma turnê de despedida mistura sentimentos de alegria e de uma certa melancolia?

Não vou parar de cantar, mas sim terminar com as longas viagens. Não poderei mais fazê-las. Já sinto agora que não poderei continuar daqui a dois ou três anos, então é preciso prever as coisas com uma certa antecedência. Mas poderei fazer recitais de uma forma que não seja cênica, apenas o canto, isso será possível. Mas o público estrangeiro não quer simplesmente a canção. Então é preciso ser razoável e saber parar.

O senhor sempre conjugou a “felicidade de cantar e de viajar”.

Juntei os dois porque adoro as descobertas. Sou um explorador. É visitando o mundo que mais aprendemos. Mas Jules Verne fez isso sozinho em casa (risos).

No palco, o senhor diz experimentar a sensação de ter 20 ou 30 anos a menos. Ainda se sente assim?

Adquirir mais idade e envelhecer são duas coisas completamente diferentes. Deve-se ficar mais velho sem envelhecer. No palco, não tenho idade. Na verdade, não tenho idade nos meus pensamentos.

O senhor escreveu que, a partir de uma certa idade, a idéia da morte se torna companheira de nossos dias. O senhor pensa na morte?

A morte é mais jovem do que eu, não penso nela. Ela tem 17 anos a menos do que eu. É ela que deve pensar em mim, não eu (risos).

O senhor não acredita na posteridade. Por quê?

Ainda não me provaram que se pode acreditar na posteridade. Certamente que podemos citar autores, compositores, grandes escritores gregos e outros, mas é uma pequena posteridade, percebida por poucas pessoas. E quanto mais avançamos, mais se produz, e quanto mais se produz, menos tempo temos de aprender. Tenho amigos que morreram não faz muito tempo, e não se faz nada sobre eles. Outros são mais lembrados, porque suas famílias se encarregam de promovê-los. Mas, por exemplo, ninguém fala de Léo Ferré (1916-1993). Era um imenso poeta, e quase não se fala dele. Ninguém fala de Gilbert Bécaud (1927-2001). Se os filmes de Yves Montand não fossem reprisados, ninguém se lembraria dele. É por isso que não acredito na posteridade. Há um que, mesmo assim, resiste, que é Carlos Gardel. Mas os grandes cantores americanos do passado, não. As pessoas se recordam um pouco de Bing Crosby (1903-1977),  mas é tudo.

No show, o senhor faz um duo virtual com Édith Piaf, que foi sua protetora, e com quem viveu uma profunda amizade, uma relação “dependente”, como definiu certa vez. Como o senhor vê, hoje, Piaf sendo relembrada pelo cinema e mesmo pelo Oscar nos EUA?

Me dá um enorme prazer ver que esta mulher, que não cantou na maioria dos países onde é célebre, tornou-se mais importante morta do que viva. Isso pode talvez ensinar certos países a reavivar velhas glórias que os marcaram e que foram esquecidas. Há mais do que se pensa. Não sei qual é a situação da lembrança brasileira. Mas conheço nomes que vêm de longe, seja o de Elizeth Cardoso ou o de Maysa, que não vejo serem muito lembrados hoje. Isso é a posteridade. Elas estarão vivas enquanto, eu, você, nos lembrarmos delas. Quando não houver mais ninguém para fazê-lo, acabou-se. C’est la vie.

Pierre Rosanvallon: “Os cidadãos desejam ser ouvidos além das campanhas eleitorais”

Pierre Rosanvallon: “A grande ilusão dos populismos é o retorno a um tipo de unanimidade”. Foto © Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – O mundo vive um clima de fatalismo no limiar de uma nova era da modernidade, marcada por uma profunda crise da democracia eleitoral representativa, que já não supre as aspirações emancipatórias dos cidadãos. O desencanto democrático estimula o crescimento dos populismos, principalmente na Europa. Neste período de transição, emergem, cada vez mais, líderes políticos híbridos, na ideologia e na ação. Esse é o diagnóstico traçado por Pierre Rosanvallon, especialista em História Moderna e Contemporânea do Collège de France e fundador do grupo de reflexão República das Ideias, em seu mais recente ensaio publicado na França, “Nossa história intelectual e política (1968-2018)”. Rosanvallon conversou com O GLOBO sobre o “preocupante desmoronamento democrático” nas sociedades contemporâneas em sua sala no Collège de France, em Paris.

Em seu ensaio, o senhor diz não se contentar em “organizar o pessimismo” reinante, mas em tentar inverter a tendência deprimente de nosso tempo. Como o senhor define, hoje, o estado do mundo?

Este estado da sociedade francesa que mistura a perplexidade e o desencanto, a morosidade e a cólera, são sentimentos que vemos em todas as sociedades contemporâneas. Deste ponto de vista, a situação francesa não é diferente do que vemos na América Latina, na Ásia, na América do Norte. É um contexto mundial geral, com suas especificidades. A palavra mais forte que resume todos estes sentimentos é “impotência”, numa insatisfação que favorece uma democracia negativa, sob formas de comunidades de rejeição. São paixões da ordem da repulsão, bem mais do que da atração, que se desenvolvem por todo lado.

O que seria esta nova era da modernidade, na qual, segundo o senhor, estamos adentrando?

Estamos em um momento de transição para a entrada numa nova era da modernidade democrática, que tem várias dimensões. A principal delas é a dimensão política e democrática. A primeira revolução foi a dos direitos humanos, suprimir a dominação absolutista e colonial. Num segundo momento, foi a luta pelo sufrágio universal e a organização dos partidos políticos. E, hoje, progressivamente se colocou em prática o que se poderia chamar de democracia eleitoral representativa, mas que ainda necessita ser melhorada. Como? Limitando a corrupção, restringindo o papel do dinheiro público, reduzindo a duração dos mandatos ou organizando eleições proporcionais. Mas os cidadãos querem ainda mais, não simplesmente um poder do voto a cada quatro ou cinco anos. Não querem mais ser cidadãos intermitentes. Há uma aspiração a uma democracia permanente, de prestação de contas, de controle, de vigilância, na qual se tem o sentimento de que o poder se sente responsável e que sua responsabilidade pode ser questionada. Estamos atualmente, de forma confusa, nesta busca além dos pilares da democracia eleitoral representativa — que merece ser melhorada em muitos países, e o Brasil é um forte exemplo entre tantos —, na construção de uma democracia permanente e cotidiana. A eleição não faz a democracia, mesmo que fosse perfeita, numa competição aberta a todos, sem influência do dinheiro, sem corrupção e com toda transparência. Daí a aspiração dos cidadãos de que sejam ouvidos além das campanhas eleitorais, onde reina o princípio de sedução. Começa-se apenas a se tomar consciência de como organizar esse novo continente democrático. E toda uma parte deste sentimento de morosidade é ligado a essa constatação dos limites da democracia eleitoral representativa.

Na sua opinião, as sociedades contemporâneas se definem hoje, cada vez mais, por suas minorias e não pelas escassas maiorias eleitorais…

As eleições se tornaram uma autorização de governar. Toda a ideia democrática foi pensada como uma ideia de unanimidade: desde que se colocar fim a uma pequena aristocracia, haverá uma sociedade unificada, e todo mundo terá os mesmos interesses. E se viu que a modernidade não é a simplificação, mas a complexidade da sociedade, com oposições de ideias, de interesses, de situações. Cada um de nós é um cidadão contraditório. Defendemos coisas como consumidores que podemos rejeitar como produtores. Não se trata apenas de escolher um dirigente, mas colocar em funcionamento métodos democráticos de construção da unidade de um país. Mesmo alguém como Karl Marx dizia que no dia em que houvesse o sufrágio universal todos os problemas seriam resolvidos, porque os interesses da maioria seriam satisfeitos automaticamente. O que ele não viu foi que a sociedade não é unificada. A grande ilusão dos populismos é o retorno a um tipo de unanimidade.

O senhor diz que o populismo se reivindica como uma das respostas a esse desencanto democrático e que será um fenômeno importante neste século. Por quê?

Os populismos dizem que possuem a solução democrática e também a econômica, o nacional-protecionismo. Argumentam que a justiça social poderá ser organizada no momento em que não houver mais uma sociedade de concorrência: o protecionismo constrói a coerência social, e se terá uma democracia de unanimidade.

O senhor assinala a existência de um populismo de direita, mas também a emergência de populismos de esquerda e de outros ainda inclassificáveis, como o movimento Cinco Estrelas, na Itália.

O populismo na Europa era fundado essencialmente na questão da imigração, de extrema-direita. Mas se vê, hoje, que o populismo é também uma atitude face à democracia e à economia. E emergiu um populismo de esquerda. Aqui na França, é representado por Jean-Luc Mélenchon (do movimento França Insubmissa). Na Alemanha, se vê hoje este movimento Aufstehen, nascido de uma cisão do Die Linke. E na América Latina, o populismo sempre foi de direita e de esquerda, misturava os dois. Na Argentina, a figura de Juan Domingo Perón (1895-1974) é emblemática, era amigo dos fascistas e ao mesmo tempo cúmplice dos sindicatos. O colombiano Jorge Eliécer Gaitán (1898-1948) era um anticapitalista convicto, citado por Hugo Chávez e celebrado por Fidel Castro. Mas é preciso assinalar a diferença entre os movimentos populistas, que se definem por ideais e ideologias, e os regimes, que são a passagem à ação. O populismo dos governos polonês e húngaro se define pela xenofobia e uma relação muito problemática com a democracia, e, ao mesmo tempo, na economia são neoliberais e recebem muitos recursos da União Europeia. O regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, também tem uma visão restritiva da democracia, mas uma abordagem de economia fechada, que produziu a catástrofe que se vê hoje.

Como o senhor define os governos de Vladimir Putin, na Rússia, e de Recep Tayyip Erdogan, na Turquia?

Eles são populistas, essencialmente, na dimensão política. Porque são economias que comercializam com o mundo inteiro. São democracias eleitorais, mas os contrapoderes não são levados em conta, e a imprensa é cada vez mais silenciada. As próprias eleições são manipuladas. Mas não são ditaduras, que suprimem as eleições. São democracias limitadas, definidas pelo elo pessoal entre o líder e o povo. Essa é a visão de Putin. De um certo ponto de vista, pode-se dizer que a Turquia e Rússia são o modelo do cesarismo bonapartista. A figura da História à qual Erdogan e Putin mais se assemelham é Napoleão III, que chegou ao poder organizando um plebiscito. Ele tinha toda uma teoria da democracia que se parece à visão que Putin chama de “democracia soberana”.

E Donald Trump, nos Estados Unidos?
Por certos aspectos, pode-se dizer que Trump é populista. Mas, ao mesmo tempo, é um personagem híbrido, uma mistura de capitalista ultraliberal e de protecionismo, o que normalmente não combina. Trump ilustra bem esta categoria. Quando se fala, hoje, de populismo, não se deve apenas ver um conjunto coerente, mas algo alimentado por elementos que designam um clima geral. Não se pode dizer que Trump se parece com Chávez. Também não se pode dizer que Emmanuel Macron é populista. Ao mesmo tempo, ele tem uma visão do face a face da autoridade com a sociedade impressa por uma atmosfera do populismo. A particularidade de Trump é que, ao lado desta atmosfera populista, há a variável individual de caráter, talvez mesmo psiquiátrica, que acrescenta elementos de especificidade muito grande, e a atualidade destes últimos dias revela que ela é, inclusive, decisiva. Além das posições políticas, há o problema de uma personalidade perturbada.

O senhor classifica Macron como um “republicano autoritário”, a mistura de um liberal clássico com a cultura da direita tradicional.

Neste período de transição em que vivemos, há muitas personalidades e ideologias híbridas. Liberais, socialistas, conservadores, progressistas misturam diferentes elementos. Além do caso de Macron, é uma característica destes tempos, em que vemos personalidades híbridas, entre dois ou três mundos, e outras, mais reativas, do populismo como uma cultura política. Macron é um liberal clássico, mas que não gosta do contrapoder. Vemos emergir personalidades compostas assim em períodos de desencantamento.

E como explicar a atual agonia da esquerda tradicional, encurralada, como o senhor aponta, entre a “impotência de uma esquerda de postura” e o “realismo estéril de uma esquerda de governo”?

A esquerda está nesse estado, hoje, porque não fez uma análise geral. Pensava que seu único problema era de adaptação: passado o tempo da visão coletivista revolucionária, seria preciso uma abordagem mais reformista, social-democrata. Achou que o problema era simplesmente um aggiornamento, e não uma redefinição estrutural das condições de emancipação. Mirou fora do alvo, se dizia que a esquerda era demasiado utopista, que deveria ser mais realista. Mas é preciso saber que visão se tem do momento presente para poder agir de maneira eficaz.

A esquerda tradicional acabou na França?

Se olharmos a esquerda a partir de partidos que historicamente a definiram, sim, com um Partido Comunista (PCF) em torno de 2% dos votos, e um Partido Socialista (PS) com cerca de 6%. Não se pode esquecer que quando François Mitterrand chegou ao poder (1981), o PCF e o PS tinham mais de 20%. É um tipo de desmoronamento interno, com causas principalmente intelectuais. Claro que há o desgaste das personalidades, mas não é essa a principal explicação. A questão é que todos os pontos de referência, os elementos de linguagem e de visão do mundo da esquerda eram adaptados a uma modernidade passada. Eles tiveram seu papel em seu tempo contra o conservadorismo. Mas, hoje, a esquerda está desamparada e falta se adaptar a essa terceira era da modernidade. Hoje, ainda fala de reformismo, de pragmatismo. Eles viram a ruptura com o passado como uma adaptação comportamental e não como uma redefinição intelectual radical. A radicalidade não está na expressão de um sentimento de intransigência e de revolta, mas sim na compreensão da raiz dos problemas.

O resultado das recentes eleições na Suécia, com um aumento dos votos para a extrema direita, e o crescimento do populismo na Europa preocupa?

É muito preocupante ver que o crescimento dos populismos é particularmente marcado na Europa. Se as eleições na Suécia atraíram tanta atenção é porque se trata justamente do país que simbolizava melhor na Europa o sucesso da modernidade. E ver essa reviravolta possível na Suécia é o sinal mais violento e estrondoso disso. Ao mesmo tempo, não se deve perder de vista que a Europa foi o continente da invenção da democracia institucional moderna, mas também o das maiores perversões da democracia no século XX. Não esqueçamos que o fascismo, o nazismo e o stalinismo são criações europeias. Não se pode, felizmente, comparar o crescimento dos populismos com isso. Não se trata de uma repetição desses horrores absolutos, mas, ainda assim, é uma repetição do desmoronamento democrático, em versão mais suave e menos radicalmente dramática.

Entrevistas, reportagens e textos de um jornalista em Paris