Patrimônio devastado: incêndio na Catedral de Notre-Dame emociona a França e o mundo

País em choque: Bombeiros lutam para controlar as chamas que destroem parte da Catedral de Notre-Dame, em Paris: autoridades supõem que fogo começou no canteiro de obras de restauração no topo da emblemática igreja. ©Yann Castanier/Hans Lucas

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Apoiada em uma murada da Pont Neuf, a parisiense Virginie Bastier, 55 anos, não continha as lágrimas diante das chamas que consumiam o telhado e as entranhas da catedral de Notre-Dame, no início da noite de ontem.

– Estou transtornada – disse, soluçando. – Para mim, é mais do que um símbolo, é um monumento vivo, é a alma de Paris. Esta catedral resistiu à Revolução Francesa, às guerras. Moro aqui ao lado, uma amiga me ligou avisando e vim ver. Estou rezando para que sobre algo.

O incêndio que devastou a secular catedral em plena Semana Santa, apesar de ter destruído dois terços dos telhados, preservou a estrutura principal e as duas grandes torres de sua fachada, um alento na perspectiva de sua reconstrução. O pináculo em forma de agulha, uma marca da Notre-Dame, desabou completamente, em uma imagem que percorreu o mundo. O presidente francês, Emmanuel Macron adiou, em cima da hora, a alocução televisiva em que deveria anunciar medidas para atender às reivindicações do movimento dos “coletes amarelos”, e prometeu todos os esforços para a reedificação do emblemático monumento:

– Notre-Dame de Paris é nossa História, nossa literatura. É o epicentro de nossa vida. É tantos livros e pinturas. É a catedral de todos os franceses, mesmo daqueles que nunca a visitaram. Nós faremos apelo aos maiores talentos e reconstruiremos Notre-Dame, pois é o que esperam os franceses, é o que nossa História merece, é nosso profundo destino – disse Macron, ao lado do premier Édouard Philippe e da prefeita de Paris, Anne Hidalgo.

A Fundação do Patrimônio francesa lançou uma campanha de coleta de fundos para financiar a futura reconstrução da catedral, monumento histórico mais frequentado da Europa, com mais de 13 milhões de visitantes anuais. Ao longo da noite, dezenas de internautas providenciaram, via plataformas online, iniciativas semelhantes de arrecadação de recursos. A família Pinault, do grupo de luxo Kering, foi a primeira a nunciar uma diação, no valor de € 100 milhões, para ajudar na reedificação. Na opinião de Eric Fischer, diretor da Fundação da Obra Notre-Dame, da Catedral de Strasbourg, segundo os estragos “consideráveis”, serão necessárias “décadas” para a reconstrução da catedral.

180 anos de construção

Deflagrado por volta das 18h50m (13h50m horário de Brasília), o braseiro se propagou rapidamente por causa da ampla e inflamável estrutura superior formada por antigas vigas de madeira, em um “incêndio difícil”, na definição das autoridades, por causa da complexidade de intervenção no histórico prédio, cuja construção iniciou em 1163 e levou 180 anos para ser concluída. Recorrer ao despejo de água por meio de helicópteros ou aviões Canadair – como foi sugerido pelo presidente americano, Donald Trump, via Twitter – não era uma opção viável segundo a segurança civil, por causa do alto risco de efeitos colaterais na estrutura da edificação. A Justiça francesa abriu um inquérito por “destruição involuntária por incêndio” para determinar as causas do incidente. Uma das hipóteses é a de que o fogo tenha começado no canteiro de obras de restauração do telhado, então em curso. Já na madrugada de hoje, operários que trabalhavam no local começaram a ser ouvidos no âmbito da investigação. Pelo momento, a possibilidade de que tenha sido um incêndio criminoso não é a primeira alternativa considerada pelas autoridades.

©Hubert Hitier/AFP

Uma parte das obras conservadas no interior da catedral puderam ser extraídas. Dezesseis estátuas já haviam sido retiradas no último dia 11, para restauração.

– Creio que salvamos a coroa de espinhos, a túnica de São Luís, alguns cálices, e o penso que o tesouro também não foi atingido. No interior, foram salvos também alguns quadros – declarou o reitor da catedral, monsenhor Patrick Chauvet.

A medida que a noite adentrava, uma multidão em recolhimento, incrédula e entristecida se aglomerava no entorno do incêndio, em um silêncio somente interrompido por um canto espontâneo de “Ave Maria” e outras preces. Franceses e turistas se mostravam ao mesmo tempo solidários e impotentes face ao esforço dos cerca de 400 bombeiros mobilizados para conter o fogo, segundo os números do Ministério do Interior. Por volta das 00h30, quando finalmente as chamas começavam ser controlodas, o numeroso grupo que ainda pemanecia em frente à catedral proporcionou uma salva de palmas ao corpo de bombeiros.

Marina Legrand, 72, estava em sua casa, nas proximidades, quando foi avisada por uma amiga do incêndio e desceu à rua para testemunhar a tragédia.

– As pessoas estão sideradas. É uma ferida muito profunda. É um dos maiores símbolos de Paris e da França que parte em fumaça. E, pelos tempos que correm, temos de reconhecer que não se trata de algo anódino. Mas, a exemplo de outras catedrais, vamos reconstruir tudo isso. Eu, certamente, não verei a nova Notre-Dame, mas os jovens, sim.

Comoção mundial

Líderes e personalidades de diferentes países – o próprio Trump, a chanceler alemã Angela Merkel, a premier britânica Theresa May ou o ex-presidente Barack Obama – manifestaram sua “tristeza” e “solidariedade” aos franceses. O presidente Jair Bolsonaro declarou seu “profundo pesar pelo terrível incêndio que assola um dos maiores símbolos da cultura e da espiritualidade cristã e ocidental”. A Unesco se prontificou a estar “ao lado da França para salvar e reabilitar este patrimônio inestimável”. Os jornais franceses desta terça-feira dedicam a integralidade de suas primeiras páginas à tragédia: “Notre-Dame des larmes” (Notre-dame das lágrimas), titulou Le Parisien; “Le coeur em cendres” (o coração em cinzas, La Croix, ou “Notre-Dame: le désastre” (Notre-Dame: o desastre), Le Figaro.

As irmãs Helga, 27, e Nara Pérez, 25, turistas espanholas, estavam em seu segundo dia de férias parisienses e pretendiam visitar a catedral nesta manhã.

– Estávamos na Torre Eiffel quando nos informaram do incêndio e na hora ficamos sem saber o que fazer. Podia ser um atentado. Foi um momento de completa incerteza. Vamos ter de esperar cinco ou dez anos agora, até ser reconstruída, e certamente nunca mais poderemos visitar a Notre-Dame como era antes. Foi algo realmente terrível.

***

Incêndio é nova tragédia a golpear Paris após terrorismo e violência em protestos

Desastre testa resiliência da capital francesa

PARIS – No final de tarde de céu azul de uma primavera ainda incipente, a célebre Cidade-Luz não esperava ser iluminada pela triste claridade das chamas em um de seus maiores símbolos, deixando sua população chocada diante da desoladora paisagem de uma Catedral de Notre-Dame destruída pelo fogo. Paris, campeã do turismo mundial, reconhecida pelos guias de viagem como cidade romântica e capital da gastronomia, futura sede dos Jogos Olímpicos, foi, mais uma vez, palco de uma inesperada tragédia de repercussão internacional. Desta vez, a vítima foi um emblema da História da França e um tesouro da arquitetura gótica.

Os parisienses levaram algum tempo, mas conseguiram, não sem muito esforço, se recuperar dos mortíferos atentados de 2015 e da permanente tensão provocada pela constante ameaça terrorista. Mais recentemente, a cidade se tornou cenário de consecutivos sábados de violência e de vandalismo, protagonizados por black blocs e manifestantes mais aguerridos no combate iniciado pelos chamados “coletes amarelos” por mais justiça fiscal e social, em verdadeiras cenas de batalha urbana e confrontos com as forças de segurança.

Minutos antes de o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciar medidas que visavam responder às reivindicações da população por maior poder de compra e tentar apaziguar os protestos em Paris e pelo país, densas nuvens de fumaça provocadas pelo voraz incêndio na catedral prefiguraram o anoitecer. O pronunciamento televisivo do chefe da nação foi cancelado, e a cidade mergulhou, estarrecida, em mais um acontecimento sombrio.

Mas entre o espanto e a solidariedade, enquanto choram por sua obra-prima em cinzas, os franceses não perderam tempo em lançar uma vasta campanha de reconstrução do eterno monumento. A cada 00catástrofe, a cidade sofre, mas parece reforçar sua resiliência.

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Frente a revolta, opções de Macron se estreitam

Manifestantes durante os protestos dos ‘coletes amarelos’ no sábado passado: presidente francês está sendo forçado a mudar seu estilo de governança . © Benoit Tessiier/Reuters 

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Os coletes amarelos sairão hoje às ruas da França no 19° sábado consecutivo de manifestações desde novembro, em um inédito movimento de protesto no país. A revolta, deflagrada por reivindicações de justiça fiscal e social e marcada por momentos de extrema violência, forçou o presidente Emmanuel Macron a mudar seu estilo de governança e a organizar um amplo debate nacional, encerrado no último dia 15, para acolher as principais demandas dos franceses. Mas, na opinião de analistas, pressionado pela radicalização dos protestos e o risco de frustrar as expectativas com as medidas resultantes do chamado Grande Debate, o líder francês não está próximo de terminar com seus problemas, e suas opções para solucionar esta interminável crise encolhem a cada dia. Para este sábado, o governo decidiu fortalecer o dispositivo repressivo face às manifestações.

Em um encontro realizado na última segunda-feira com 64 intelectuais, no Palácio do Eliseu – uma maratona de oito horas transmitida ao vivo -, Macron descartou um “big bang” fiscal e o retorno do Imposto de Solidariedade sobre a Fortuna (ISF), principais temas evocados no Grande Debate. Para Henri Rey, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), se o governo não propor novas medidas sociais e fiscais e o debate nacional for percebido como uma mera operação de comunicação, “a cólera duplicará” tanto entre os coletes amarelos como no restante da população que espera por resultados amplos e concretos.

– Macron ainda está em perigo, sua popularidade permanece baixa e a situação é extremamente crítica. Ele não parece disposto a abandonar as orientações políticas de seu governo até aqui. Se não houver reais avanços, outras forças populares que até agora não se lançaram neste movimento singular, inovador e divisor dos coletes amarelos, poderão aderir. Neste cenário, há uma grande probabilidade de que as organizações sindicais e estudantis, hoje ausentes das manifestações, se juntem a eles, em uma aliança que até agora não vingou.

LEGITIMIDADE

O analista político Nicolas Leron ressalta a elevada participação dos franceses nos encontros do Grande Debate pelo país, o que teria permitido ao governo recuperar temporariamente uma maior legitimidade. Segundo números oficiais, foram 10.452 reuniões locais e 1.932.881 contribuições recebidas via a plataforma digital. Mas alerta:

– É algo que pode também se voltar contra Macron, e neste caso não seriam os coletes amarelos de hoje os únicos a se mobilizarem – acrescenta. – Se esses franceses considerarem que a expressão pacífica no âmbito do debate nacional não teve resultados satisfatórios, vai complicar para o governo.

Os mais de 280 mil coletes amarelos presentes no primeiro dia de manifestação, em 17 de novembro, se reduziram a cerca de 30 mil nos últimos protestos. O apoio da população ao movimento, que beirou os 80% de aprovação em seu início, caiu para 53% na semana passada, segundo sondagem do Instituto Elabe. Concomitante à diminuição do número de manifestantes, ocorreu uma radicalização do movimento, com cenas de batalha urbana e de vandalismo em cidades da França, Paris principalmente.

– Entre os que praticam a violência, há uma importante contribuição de um movimento transfronteiriço, com a participação de ativistas alemães, italianos, belgas ou holandeses – diz Rey. – Mas não é verdade afirmar que de um lado estão coletes amarelos pacíficos e, de outro, black blocs violentos. Existe também uma ala violenta entre os coletes amarelos, incluindo alguns de seus líderes, que não hesitam em, mesmo que de forma velada, apelar à violência.

Para combater os grupos belicosos, o governo optou por recrudescer a repressão. Na última segunda-feira, caiu a cúpula da Polícia de Paris. A avenida de Champs-Elysées, palco de saques, incêndios e vandalismo, foi interditada para manifestações, e as forças de ordem receberam instruções de atuar no enfrentamento direto para a dispersão de grupos. A proteção de prédios públicos será reforçada por militares da operação antiterrorista Sentinela – o que suscitou críticas por parte da oposição – e cerca de 5 mil policiais foram convocados para garantir a segurança em Paris. Pelo lado dos coletes amarelos, páginas no Facebook deram o tom dos ânimos para este sábado por meio de títulos como “A guerra está declarada”.

RADICALIZAÇÃO

Para o historiador Claude Pennetier, do Centro Nacional de Pesquisa Social (CNRS, na sigla em francês), os incidentes provocam o governo e também lhe conferem legitimidade como um poder forte.

– É um movimento jamais visto, que embora tenha mostrado sinais de enfraquecimento, não parece que vai acabar. Como, por enquanto, não são oferecidas novas perspectivas para a sociedade, isso vai se manter. E a impressão que se tem é a de que mais são utilizados métodos duros de repressão, mais a radicalização se intensifica.

Para Leron, a dificuldade está, hoje, em visualizar se a crise atual é passageira ou se configura um movimento que ultrapassa qualquer capacidade de ação estratégica do governo:

– Um pouco como na Revolução Francesa de 1789, que começou com um sentimento de injustiça fiscal e não mais parou. Hoje, não sabemos se vivemos apenas um sobressalto da população francesa ou se é algo mais profundo, uma virada histórica, como uma onda crescente que ninguém consegue deter.

Carta escrita em Auschwitz na II Guerra ressuscita 75 anos depois

Original de mensagem colocada em uma garrafa e enterrada sob um crematório nazista reaparece e revela, enfim, seu autor.  Fotos: © Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – “Desde que estou aqui, jamais acreditei na possibilidade de retornar. (…) Aqui é um outro mundo. É o Inferno. Mas o inferno de Dante é imensamente ridículo em relação ao verdadeiro daqui, e nós, como testemunhas oculares, não devemos sobreviver. Apesar de tudo, mantenho, por vezes, uma pequena faísca de esperança – talvez por um milagre qualquer. Eu que já tive tanta sorte, um dos mais velhos aqui, sobrevivi a tantos obstáculos, será que ocorrerá o milagre final? Mas, neste caso, chegarei antes que seja encontrada esta carta enterrada”.

O trecho acima pertence a uma missiva de oito páginas escrita em 6 de novembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, no campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, e que hoje, 75 anos depois, ressuscita do passado em uma trama detetivesca que corrige a História ao revelar a verdadeira identidade de seu autor e surpreende seus familiares. Assinada apenas por “Hermann”, a carta foi descoberta em fevereiro de 1945 por um enfermeiro da Cruz Vermelha, Andrejz Zaorski, dentro de uma garrafa de vidro sob os escombros de um dos crematórios de Auschwitz.

Judeu polonês de Varsóvia, radicado em Paris e deportado do campo francês de Drancy em 2 de março de 1943, conforme descreveu em sua carta, Hermann foi imediatamente selecionado em Auschwitz para integrar o Sonderkommando (comando especial), grupo encarregado de transferir os cadáveres das câmeras de gás para os crematórios – o que incluía retirar as vestes, cortar os cabelos e extrair os dentes de ouro dos corpos -, função que exerceu por cerca de 20 meses. Os membros do Sonderkommando eram isolados dos demais prisioneiros e, como testemunhas das práticas de extermínio, a Solução Final, estavam condenados à morte. Um mês após a conhecida revolta de integrantes do comando especial do Crematório IV, em 7 de outubro de 1944, Hermann, intuindo seu fim próximo, escreveu uma carta de despedida para sua mulher, Hela, e sua filha única, Simone, então adolescente, que permaneceram escondidas na França durante a guerra, e a enterrou. Trata-se da única carta manuscrita em francês do total de oito encontradas no campo de autoria de integrantes do Sonderkommando.

Karen Taieb, responsável pelos arquivos do Memorial da Shoah, redescobriu a carta original e desvendou seus segredos.

“Se escrevo para vocês hoje sob grande risco e perigo é para anunciar que é minha última carta, que nossos dias são limitados e que se um dia vocês receberem esta missiva devem me contar entre os milhões de nossos irmãos e irmãs desaparecidos deste mundo. Asseguro que parto calmamente e talvez heroicamente (dependerá das circunstâncias), com o único lamento de não poder revê-las por um só instante”. (Trecho da carta encontrada em Auschiwtz-Birkenau)

Em fevereiro de 1948, de posse da missiva, o Ministério de Ex-Combatentes e Vítimas de Guerra francês procurou contatar os destinatários publicando trechos do texto em um informe da associação de deportados de Auschwitz. A partir deste momento, o manuscrito original nunca mais foi visto. Em 1968, uma transcrição da carta que havia sido feita pelo ministério foi enviada ao Museu de Auschwitz. Pesquisadores do museu atribuíram sua autoria a Chaim Hermann, judeu de Varsóvia, habitante de Paris e único Hermann da lista de deportados de Drancy para Auschwitz em 2 de março de 1943, em um erro que acabou sendo repetido em todas as obras e documentos históricos ao longo de décadas. Nenhum familiar de Chaim Hermann, morto no período da guerra, se manifestou, e tampouco ninguém atentou para o fato de que por ele ser solteiro e sem filhos não poderia ser o missivista.

“Nosso transporte, que se compunha de 1.132 pessoas, deixou Drancy no amanhecer em 2 de março, e chegamos aqui no crepúsculo do dia 4, em vagões de animais, sem água. Cem pessoas foram triadas para descer no campo (entre as quais eu estava), o resto seguiu direto para o gás e os fornos. No dia seguinte, (…), nos colocaram como por acaso nos famosos “Sonderkommando’, onde nos declararam que seríamos reforços para trabalhar como ‘coveiros’.”

O engano somente foi desfeito recentemente por acaso, durante as pesquisas de Karen Taieb, responsável pelos arquivos do Memorial da Shoah, em Paris, para a publicação de um livro sobre manuscritos de deportados judeus em Auschwitz. Em sua busca nos documentos indexados no Memorial, se deparou com a fotocópia de uma carta em francês que, na leitura, notou ser escrita por um integrante do Sonderkommando. Por saber que o único manuscrito em francês era de autoria de Chaim Hermann, comparou os dois e, para seu espanto, se tratava exatamente do mesmo texto, mas atribuído a outro nome: Hersz Strasfogel.

– Em 2002, a filha, Simone, atendendo a uma campanha de coleta de dados de deportados para futura inscrição do nome no nosso muro, esteve aqui no Memorial, preencheu o formulário, anexou uma pequena foto de identidade de seu pai e uma fotocópia da carta – conta Taieb. – Mas só mais tarde os documentos anexados a esses formulários foram indexados, e quem o fez não precisou que a carta tinha relação com o Sonderkommando. Infelizmente, naquele momento desperdiçamos uma informação capital. É uma pena, pois Simone ainda estava viva e poderíamos ter obtido seu testemunho. Ela morreu há dois anos, é terrível.

“Vinte meses se passaram, e me parece um século. É praticamente impossível de descrever todas as dores do que vivi. Vocês lerão muitas obras escritas sobre este ‘Sonderkommando’, mas peço que jamais me julguem mal, se entre nós havia bons e ruins, eu certamente não estava entre os últimos. Durante este tempo, fazia tudo o que me era possível, não temendo riscos nem perigos, para aliviar o destino dos infelizes ou politicamente, o que não posso escrever para vocês, assim que tenho minha consciência limpa e à véspera de minha morte posso me sentir orgulhoso”.

Hersz Strasfogel, o verdadeiro autor da carta de Auschwitz. @Memorial da Shoah/col. Muntlak.

Quando se mudou para a França no final dos anos 1920, Strasfogel passou a usar o prenome Hermann no lugar de Hersz, o que explica a assinatura. Sua mulher, Hela, era também chamada de Hélène, e sua filha, Sima, adotou o Simone. Os familiares nunca souberam que a carta circulava sob autoria de Chaim Hermann e não tinham a mínima ideia da importância histórica do texto. Em sua investigação, Taieb descobriu, graças a um documento encontrado nos arquivos do Memorial de Caen, que a carta original fora entregue à família em 2 de março de 1948.

Simone só viu a carta em 1989, ao esvaziar o apartamento de sua mãe recém-falecida, e passou a guardá-la em um cofre no banco. Filho de Simone e neto de Strasfogel, Laurent Muntlak, hoje com 64 anos, conta que o tema era tabu na família.

– Eu mesmo só tive acesso a uma fotocópia em 2002, quando minha mãe esteve no Memorial, mas confesso que só li o manuscrito recentemente, quando fui mostrar o original a Karen Taieb. Todos queriam viver com um grande “V” e esquecer essa história após tudo o que se sofreu. Sabia que minha avó e minha mãe haviam se escondido durante guerra, mas não conhecíamos os detalhes. Só agora tivemos consciência do testemunho histórico que representava esta carta. E é um texto dramático, mas também repleto de esperança. Pretendo fazer uma viagem a Auschwitz, no inverno, para tentar entender tudo por que passou meu avô – diz, vertendo lágrimas.

Laurent Muntlak, neto de Strasfogel, só agora foi saber da história do avô e da carta.

“Sempre enxergava Simone se distanciar no dia 17 de fevereiro, em companhia de Mr. Vanhem, quando a seguia pela janela. E mais de uma vez, caminhando no vasto espaço do crematório (vazio), pronunciava em voz alta o nome Simone; e escutava minha voz ecoando esse adorado nome que infelizmente não poderia mais chamar – esta é a maior punição que nosso inimigo poderia nos infligir”.”

Strasfogel, sua mulher, Hela, e a Filha Simone, ainda bebê. ©Arquivo pessoal/L. Muntlak

Strasfogel trabalhava como alfaiate em uma peça de seu próprio apartamento parisiense, no 117 do bulevar Richard Lenoir, nas proximidades da praça da Bastilha. Seu pedido de naturalização francesa ainda não havia sido avaliado até o dia de sua detenção, em 20 de fevereiro de 1943. Para o historiador alemão Andreas Kilian, especialista no estudo dos Sonderkommando, é provável que tenha sido incluído no grupo transferido para o campo de Gros-Rosen, em 26 de novembro de 1944, juntamente com parte do equipamento dos crematórios, e lá executado, aos 49 anos. Kilian destaca a importância do achado da carta original, o primeiro manuscrito encontrado após a liberação dos campos:

– Até hoje só conhecíamos a transcrição, com alguns erros. É uma carta especial, pois mais íntima, diferente dos demais relatos, mais históricos, e que trata do significado de vida e morte no cotidiano dos Sonderkommando. Muitos pensam que eles eram desumanizados, colaboracionistas que agiam como animais, o que não é verdade. Ele escreve que era politicamente ativo, estava na resistência, mas que não poderia falar mais sobre isso. O conteúdo da carta revela sua consciência política e o profundo amor por sua família. É um exemplo muito importante de humanidade no Sonderkommando.

A ti, minha querida mulher, peço que me desculpe se, por vezes, na vida tínhamos pequenos diferendos, hoje vejo que não sabia como adorar o tempo passado; aqui, penso sempre que se por um milagre me salvar, vou refazer uma outra vida… Mas, infelizmente, isso está excluído, ninguém sai daqui, tudo está acabado. Sei que você ainda é jovem, e deve se casar; lhe dou carta branca, ordeno mesmo, pois não quero vê-las enlutadas”.

Segundo Kilian, de 1942 a 1945, cerca de 2.200 deportados foram forçados a trabalhar nos Sonderkommandos, e estima-se que em torno de 110 sobreviveram à guerra.

– Hoje, há apenas um sobrevivente, em Los Angeles, com 96 anos. O outro que ainda estava vivo faleceu há poucas semanas. A carta de Strasfogel nos permite olhar de maneira mais profunda em relação ao seu papel neste grupo, que não era homogêneo. Ele era um dos mais velhos prisioneiros naquela época, em novembro de 1944, com muitas conexões, e muitas pessoas gostavam dele. Os nazistas por vezes obrigavam os prisioneiros a escreverem cartões postais aos familiares, tanto como operação de propaganda, para mostrar que “gozavam de saúde em um campo de trabalho”, como para descobrir o eventual paradeiro de novas vítimas. Registros atestam que Strasfogel enviou duas destas mensagens (desaparecidas), mas sua carta revela que recebeu uma resposta de sua família, algo bastante incomum, segundo Karen Taieb:

– Graças à carta de Strasfogel, sabemos que correspondências foram enviadas e recebidas pelo destinatário. É algo extraordinário, que não se imaginava, e ainda mais se tratando de integrantes do Sonderkommando, pois deveriam estar em total isolamento.

“Minha carta chega ao seu fim, como minhas horas, e digo meu derradeiro adeus, para sempre; é a última saudação, beijo vocês bem forte pela última vez e peço mais uma vez para acreditarem que me vou alegremente sabendo que vocês estão em vida e que nosso inimigo está perdido; é mesmo possível que pela história do ‘Sonderkommando’ vocês saibam o dia exato de meu fim. Me encontro na última equipe de 204 pessoas, destruímos atualmente o Crematório II, e se fala de nossa própria liquidação no corrente desta semana. Me desculpem por meu texto confuso e por meu francês, se vocês soubessem em que circunstâncias escrevo…”.

No último dia 10, o Memorial da Shoah organizou uma cerimônia para oficializar a doação pela família do manuscrito original de Strasfogel, que ganhou um espaço em sua exposição permanente destinada aso campos de extermínio.

– Trata-se também de uma questão de justiça reatribuir a este senhor a paternidade de sua carta. Fico triste por Chaim Hermann, que era conhecido apenas por esta razão, por isso fizemos pesquisas aprofundadas para recuperar algo de sua história, mas, infelizmente, não encontramos praticamente nada – lamenta Taieb.

Jane Birkin: entre seu diário íntimo e suas viagens pelo mundo

                                                                                                                                              Foto: © Gabrielle Crawford

FERNANDO EICHENBERG / UP MAGAZINE

PARIS – Inglesa de nascimento, Jane Birkin começou cedo sua vida artística. Aos 17 anos, debutou nos palcos londrinos em uma peça de Graham Greene. Aos 19, se casou com John Barry, oscarizado compositor britânico, reputado pelas trilhas sonoras dos filmes de James Bond. No cinema, despontou em 1966 no controverso filme cult “Blow up” (Palma de Ouro do Festival de Cannes 1967), de Michelangelo Antonioni, em que provocou escândalo ao protagonizar uma das pioneiras cenas de nu frontal nas telas. Em 1968, conheceu, em Paris, Serge Gainsbourg (1928-1991), poeta maldito e músico irreverente, com quem viveu uma intensa e duradoura relação de 12 anos. Hoje, aos 72 anos, estrela mais uma turnê internacional, interpretando canções de Gainsbourg, acompanhada de uma orquestra sinfônica. Nesta entrevista, fala de suas viagens pelo mundo e do primeiro volume de seu diário, recentemente lançado na França.

Capa do primeiro volume do diário de Jane Birkin, recentemente lançado na França.

Na primeira vez em que Jane Birkin embarcou em um avião, aos 15 anos de idade, em Londres, o destino predizia seu futuro: Paris. Sua avó fez roupas especiais para seu inseparável boneco de macaco, o “Munkey”, que viajou ao seu lado na poltrona, com o cinto de segurança afivelado. O interior da aeronave era todo revestido de tecido com motivos escoceses. “Foi extremamente excitante. Lembro de chegar em Paris, com minha mãe e meus irmãos, passear em Champs-Elysées, tomar chocolate quente, ouvir as pessoas falando francês. Depois, pegamos um trem para a praia, no sul da França. Mas o que me deixou siderada foi meu pai, que se juntou a nós mais tarde, e que colocou seu automóvel dentro do avião em que viajou! Era uma época em que se podia fazer isso”, recorda.

No ano seguinte, em 1963, retornou à capital francesa para uma temporada de aprendizado do francês, hospedada com mais cinco inglesas no apartamento de uma senhora no número 67 do bulevar Lannes, coincidentemente mesmo endereço de Édith Piaf. Quando a célebre cantora morreu, uma multidão de fãs e fotógrafos se aglomerou diante do prédio. Brigitte Bardot e Yves Montand foram algumas das celebridades que vieram ao apartamento de Piaf. Quando a jovem Birkin saiu de casa no dia seguinte, alguém gritou “Françoise Hardy!”, pensando se tratar da popular cantora francesa. “Foi engraçado. Ainda mais que considerava Françoise Hardy formidável. Tinha acabado de comprar seu último disco (“Tous les garçons et les filles de mon âge”). Foi divertido ter sido confundida com ela. Não falava nada de medo que meu sotaque me traísse. Queria deixar que ficasse a dúvida”, conta.

O icônico casal Jane Birkin e Serge Gainsbourg. © Reg Lancaster/Getty Images

Sua vida sofreu uma definitiva virada ao desembarcar outra vez em Paris, em 1968, para contracenar com Serge Gainsbourg no filme “Slogan”, de Pierre Grimblat, em um papel que havia sido previsto para a consagrada modelo Marisa Berenson. No começo, contrariado, ele não facilitou as coisas para a principiante atriz, mas do encontro frutificou uma relação que os tornaria um dos casais mais emblemáticos de seu tempo, parceiros no amor, em noitadas mundanas ou em projetos artísticos. A dupla se tornou onipresente em capas das mais diferentes publicações e símbolo da liberalização dos anos 1970. A canção “Je t’aime moi non plus“, furor erótico de 1969 de autoria de Gainsbourg, fora inicialmente reservada para Brigitte Bardot, mas os versos de sensualismo explícito e gemidos lúbricos acabaram revelados pelas agulhas dos toca-discos na voz de Jane Birkin.

Depois de seu monótono casamento com John Barry, a vida boêmia em Paris com Gainsbourg foi a descoberta de um novo mundo. O casal se divertia nas conhecidas casas noturnas da época – como Régine, Castel, Madame Arthur ou Raspoutine – ou pernoitavam de improviso em um hotel de prostitutas no bairro Pigalle. “Era um território estrangeiro e completamente fascinante. E vivia como se ninguém em casa, em Londres, fosse saber o que fazia. Era uma vida secreta. Me sentia em liberdade total. Quando fiz fotos nuas para a revista Lui, acreditava que nada se saberia fora da França, e fiquei horrificada quando vi um exemplar sob a mesa da sala na casa dos meus pais, em Chelsea. Era uma liberdade que jamais tive em Londres. Minha mãe (a atriz Judy Campbell) recusou uma peça formidável com Peter O’Toole no Royal Court Theatre porque teria de dizer ‘fuck’ em seu texto. Ela me falou: ‘Não posso fazer isso para o seu pai’. Imagine eu, com ‘Je t’aime moi non plus’. Me sentia livre na França. Sei que o Swinging London foi bastante excitante naquela época, mas estava casada, e para mim não era. E, em Paris, se podia ficar horas em um café, onde as pessoas falavam e discutiam sem parar. Era para mim uma cidade de liberdade”, resume.

Jane Birkin em sua casa, em Paris, em 1974. © Michel Laurent/Gamma

Naturalizada francesa, Jane Birkin jamais perdeu seu sotaque britânico e nunca mais abandonou Paris, cidade que a acolheu e onde viveu as mais belas aventuras. “Sou feliz de morar pelo bairro de Odéon. É um sonho poder caminhar até os cinemas, os pequenos restaurantes. Para mim, é um dos lugares mais bonitos de Paris”. Seu cotidiano, no entanto, ela reconhece ser atípico: “Como as pessoas me conhecem e me tratam tão bem, me dou conta de que me proporcionam uma vida realmente extraordinária. Deixam entrar meu cachorro, Dolly, nos restaurantes. Em um café, dão sempre um jeito de me arrumar uma mesa. Na rua, me sorriem, por vezes me tocam, dizendo: ‘Obrigado, somos contentes que você esteja aqui’. E é um amor recíproco, adoro os franceses e seus defeitos, gosto do jeito que se queixam o tempo todo. Não são lógicos como os ingleses. E me fazem rir”.

Ao longo de sua carreira, atuou em mais de 70 filmes e lançou mais de uma dezena de discos. Mãe de três filhas (a fotógrafa Kate Barry – que se suicidou no final de 2013 -, do casamento com John Barry; a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, de sua relação com Serge Gainsbourg, e a também atriz e cantora Lou Doillon, cujo pai é o cineasta Jacques Doillon), a ex-sex symbol e hoje avó permanece uma artista curiosa e uma incansável viajante. “Minha mala está praticamente sempre pronta na porta de casa, porque estou a toda hora partindo”, conta, referindo-se as suas intermináveis turnês musicais pelos quatro cantos do planeta ou as suas viagens por causas humanitárias. “Adoro as viagens de avião e as refeições nos voos. Quando chega a bandeja de comida, é um pouco como na escola, tudo me parece excitante, inesperado. Por vezes, estava mal em Paris, e quando entrava no avião, me sentia bem de novo. Uma longa viagem, como ir ao Japão, é o melhor remédio. E quando passam a pequena toalha quente enrolada para as mãos… É como ser uma criança, nas alegrias da infância”.

Em sua longa relação com Gainsbourg, no entanto, as viagens aéreas eram mais complicadas. “Ele tinha medo, sentia vertigem. Nas decolagens e aterrissagens, segurava forte minha mão como fazem os passageiros aterrorizados. Não me deixava fazer xixi durante o voo, porque temia que eu fosse desequilibrar a aeronave se caminhasse no corredor. Era um verdadeiro pânico. Mas à medida que fomos viajando mais, o medo foi diminuindo. Quando fomos à Índia juntos, já estava melhor. Ele teve a má sorte de ter se relacionado um tempo com uma ex-aeromoça, que forneceu informações que lhe foram fatais. Agradeço a essa jovem, Sylvie, por ter lhe deixado louco com as viagens de avião”, diz, em tom irônico.

Serge Gainsbourg e Jane Birkin em 1969. © Jacques Haillot/Apis/Sygma/Corbis

De Portugal, revela ter uma das mais belas lembranças: o Palácio dos Marqueses de Fronteira, em Lisboa. Para ela, é o castelo do clássico “A Bela e a Fera”. “Os jardins são impressionantes. E há azulejos nos muros, com animais fantasiosos, morcegos que bebem chá. O solo branco é lindo. Tudo é bonito. E além disso, os portugueses são engraçados, têm um humor atípico que não sei de onde vem”. Istambul é um de seus lugares preferidos no mundo, onde sempre costuma retornar, para mostrar seus encantos a pessoas próximas. “Adoro seus mercados de peixes, os restaurantes, o Grande Bazar. É uma cidade surpreendente, e tão bela quanto Veneza”. Eram frequentes suas escapadas com Serge Gainsbourg à capital da região de Vêneto, habitués do mítico Hotel Danieli, que hospedou nomes ilustres como Goethe, Wagner, Honoré de Balzac, George Sand, Émile Zola ou Charles Dickens. “O Gritti Palace é ainda mais chique, mas os dois são esplêndidos. Era especialmente lindo estar lá no inverno, quando não havia quase ninguém. Por vezes, cobriam de tábuas a praça São Marcos, por causa das inundações. Era romanesco. Tínhamos a impressão de sermos os únicos em Veneza. Quando íamos embora, o hotel fechava nosso quarto até recomeçar o período mais turístico. Adorava partir na embarcação rumo à estação de trem, observar as persianas cerradas e saber que tudo aquilo adormeceria até a próxima temporada”.

Jane Birkin também é uma viajante engajada. Esteve em Sarajevo, na Birmânia ou no Japão em solidariedade a populações em dificuldades. “O mais curioso foi a viagem ao Haiti, após o terremoto. Apesar da tragédia, foram momentos alegres em todos os hospitais que visitei. Em um deles, uma senhora de 90 anos me perguntou quem eu era. ‘Sou cantora’, respondi. Ela me pediu para cantar algo. E cantarolei ali mesmo. É um povo muito alegre, foi um encantamento estar com eles”.

O nome Birkin evoca também a famosa bolsa da marca Hermès, que leva a assinatura de sua criadora. A peça surgiu por acaso no início dos anos 1980, pela coincidência de um encontro com Jean-Louis Dumas, na época diretor da marca de luxo francesa, em um voo Paris-Londres. “No avião, me vi sentada ao lado de um senhor distinto, perguntei o que fazia, e ele disse que ia para Londres por causa de uma publicidade da Hermès. Indaguei: ‘Por que vocês não fazem uma bolsa quatro vezes maior que a Kelly (inspirada na atriz Grace Kelly), mas a metade do tamanho das malas de viagem?’. Ele me perguntou como seria, e desenhei um pequeno esboço”. Algumas semanas mais tarde, foi convidada a comparecer na sede da marca, no Faubourg Saint-Honoré, para conhecer o protótipo da bolsa que havia criado. “O modelo em papelão já era extremamente bonito. Ele me consultou se poderia dar meu nome à bolsa, e fiquei muito lisonjeada. Anos mais tarde, alguém me disse que era um dos itens mais procurados, não tinha ideia de que estava em voga”. A bolsa Birkin se tornou uma it bag, acessório obrigatório de celebridades, e virou inclusive tema do livro “Bringing Home the Birkin: My Life in Hot Pursuit of the World’s Most Coveted Handbag” (Levando a Birkin para Casa: Minha Vida numa Louca Busca da Bolsa Mais Cobiçada do Mundo, ed. HarperCollins), de Michael Tonello.

  © Gamma

Jane Birkin lamenta nunca ter ido à China – “de qualquer maneira, por ser amiga do Dalai Lama, o governo chinês não me concede visto”, explica -, e diz que gostaria de poder falar russo e fazer uma longa viagem de trem pelo país de Dostoievski. Atualmente em turnê internacional com um show de canções de Gainsbourg, acompanhada por uma orquestra sinfônica, costuma, em meio aos seus périplos, ancorar em um porto seguro: sua casa em Lannilis, na região da Bretagne. Recentemente, havia decidido se desfazer da morada, mas duas semanas antes da assinatura da venda, se arrependeu: “Cheguei a fazer um jantar de despedida lá para os meus vizinhos, e na manhã seguinte me dei conta de que seria uma loucura, não poderia me desvencilhar daquela casa. Porque há muitas lembranças. Minha filha Kate gostava muito lá. Ela está por todo lado naquele ambiente. E justo em face está a ilha na qual meu pai vinha salvar pessoas durante a Segunda Guerra Mundial”. Seu pai, comandante da Royal Navy, atravessava o Canal da Mancha de barco para resgatar aviadores ingleses escondidos pela Resistência francesa na ilha de Guenioc.

Além de suas andanças no tempo presente, Birkin acaba de fazer uma viagem ao passado. Lançou o primeiro volume de seu diário, “Munkey Diaries” (ed. Fayard), com suas confissões íntimas iniciadas em 1957, aos 11 anos, nas quais conversa com o melhor amigo Munkey.  Em 1962, com 16 anos, se imaginou, décadas mais tarde, folheando as páginas do diário: “Quando serei velha, por volta dos 40 anos, ou perto disso, com centenas de filhos, ficarei, talvez, um pouco triste de ler alguém tão jovem”. Hoje, ela diz: “Quando reli isso, dei risada. Não sabia que era angustiada com o envelhecer. Hoje, penso que 40 anos é a mais maravilhosa das idades. Mas acho que isso se explica porque era apenas bonita, nunca fui conhecida por ser uma formidável atriz ou cantora. E ser somente bonita é algo que não dá muita confiança. Um dia, minha mãe disse: ‘It’s gone’. Perguntei: ‘O que, mamãe?’. ‘Minha beleza, se foi’ (risos). Ela tinha 80 anos. E, hoje, acho que é verdade: ‘It’s gone’. Mas não somos só isso, há outras coisas. Vi Glenda Jackson, com 80 anos, atuar no teatro em ‘Rei Lear’, com um rosto como os joelhos de elefantes. Magnífica. E, de repente, passamos a amar os joelhos de elefantes”.

Já em suas intensas relações amorosas, diz ter sofrido com suas inseguranças. O amor, em suas experiências, é sinônimo de sofrimento. “Creio que no meu caso, se transformou muito rapidamente em sofrimento, pois entro em pânico com a ideia de não merecer a outra pessoa e pensar que ela me deixará por outra. Não é bom viver neste estado de estresse. Obviamente, que isso se baseia na confiança na outra pessoa e em si mesma. Mas é o que há de mais chato nas pessoas que não têm confiança em si mesmas”, admite.

O segundo volume do diário, ainda sem data de lançamento, se encerra em 2013, ano da morte de sua filha Kate. “Fiquei incapaz de continuar a partir dali. Tinha confiança em mim em uma só coisa: ser mãe. Pensava que sabia fazer isso melhor do que todo mundo. Era tudo perfeito. Minhas filhas eram divinas e também se davam muito bem entre elas. A morte de Kate transformou tudo completamente em um tipo de caos. E somos obrigados a viver com isso, como alguém que perdeu um braço, uma perna, duas pernas, e tem de aprender a viver com o resto do corpo. Faz mais de cinco anos. Na preparação do diário, não podia lhe telefonar para dizer: ‘Olha, li no diário que você fazia isso e aquilo…’. Mas todo mundo que perdeu alguém conhece isso”.

Serge Gainsbourg desenhado por Jane Birkin. © Reprodução

Jane Birkin acrescentou alguns textos explicativos em meio ao diário, para contextualizar certas passagens, e também incluiu desenhos feitos por ela na época, que ilustravam suas confissões íntimas. O primeiro tomo, de 350 páginas, termina em 1982, em um período que cobre suas descobertas adolescentes e a formação do lendário casal com Serge Gainsbourg. Entre tantas revelações pessoais e histórias de vida, fica-se sabendo também que, em 1976, o então desconhecido Gérard Depardieu atuou no filme “Je t’aime moi non plus”, escrito e dirigido por Serge Gainsbourg e também estrelado por Jane Birkin, em troca de uma caixa de champagne.

Filósofa francesa Olivia Gazalé diz que futuro do feminismo depende de uma reinvenção da masculinidade

Em entrevista, a ensaísta francesa Olivia Gazalé discute a construção histórica de estereótipos femininos e masculinos e analisa como o mito da virilidade se tornou uma armadilha para os dois sexos. Foto: © Patrice Normand

FERNANDO EICHENBERG / ILUSTRÍSSIMA-FOLHA DE S. PAULO

PARIS – O mal-estar masculino contemporâneo não é apenas consequência das diferentes formas de emancipação feminina ou dos abalos provocados pelo movimento #MeToo. A crise do homem neste início de século tem sua principal causa na erosão do mito da virilidade. Essa é a tese desenvolvida em mais de 400 páginas pela pensadora francesa Olivia Gazalé em “Le Mythe de la Virilité – Un Piège pour les Deux Sexes” (o mito da virilidade – uma armadilha para os dois sexos, ed. Robert Laffont, sem previsão de lançamento no Brasil). A autora mostra como a dominação masculina foi construída nos campos político, filosófico, religioso, biológico e cultural, moldando o homem a uma postura viril e relegando a mulher a uma posição de inferioridade. O futuro do feminismo depende, segundo ela, da conscientização pelo homem de sua virilidade fabricada e da reinvenção de sua masculinidade. Crítica das feministas radicais, ela acredita que o movimento #MeToo estabeleceu uma “mutação antropológica”, fundou um novo paradigma na relação entre os sexos e impulsou a reflexão masculina sobre a cilada da virilidade. Seu otimismo em relação à emancipação dos sexos é apenas nuançado pelas “reações hipervirilistas” nestes tempos de crise.

Você aponta um tabu em torno do mito da virilidade: projetada para encarnar a excelência da espécie humana, a masculinidade permanece, na sua opinião, pouco estudada. Até hoje, nos concentramos na perpetuação dos estereótipos sexuais femininos, e ao longo da minha pesquisa compreendi que se tratava também dos masculinos. Eles foram construídos em espelho, de forma simultânea. No século 17, as mulheres começaram a contestar a ideia do “eterno feminino” e todas as atribuições sexuais decorrentes dela. Já os homens sempre consideraram que seu status era natural. A questão da construção do estereótipo masculino não é pensada. Quantas vezes se diz: “Mas para o homem é normal, é a testosterona, os hormônios, o apetite sexual está inscrito na natureza” etc.? Quis compreender como essas duas figuras se construíram, com essa ideia de hierarquização desde o início.​

De que forma se manifesta, hoje, a crise da virilidade? O tema da crise da virilidade é tão antigo como a própria virilidade. A virilidade não é a masculinidade, mas um ideal normativo que se impôs a todos os homens. E que tentou uniformizar as masculinidades, ou seja, as diferentes formas com que os homens habitam o sexo masculino. Não é algo natural, mas um ideal de dominação pela força, pela demonstração de poder, pelo espírito de conquista, de competição e, sobretudo, pelo desprezo das emoções, do medo. Começando pelo medo de morrer. Formar soldados é fabricar pessoas que não têm medo da morte e que, inclusive, a desejam. A virilidade é algo construído e também frágil, constantemente ameaçado. É um modelo que exclui todos os homens que não têm os atributos viris. A começar pelos homossexuais e os homens afeminados, mas também, historicamente, os estrangeiros. São recorrentes essas crises. Na Grécia Antiga, Aristófanes já dizia que os homens haviam se tornado mais afeminados, sem coragem. Houve uma crise da virilidade no momento da aparição do “honnête homme”, no século 17, o “homem honesto”, civilizado, cortês, com espírito de fineza. Na Revolução Francesa, os rebeldes diziam que os cortesãos de Luís 16, com perucas e roupas rendadas, não eram homens. Não é algo novo.

Qual a especificidade da crise atual? Ela é mais profunda e mais durável. Há um movimento histórico por trás dela. Não há dúvida de que a emancipação feminina tem sua influência, principalmente em tudo relacionado à família. O “pater familias”, o poder do pai, não existe mais; hoje se fala em autoridade paternal compartilhada. Há o fato também de que a mulher controla a procriação, a contracepção está em suas mãos. No quadro da família e das relações sexuais, é evidente que a emancipação feminina abalou o lugar do homem e foi um progresso para a sociedade, com pontos positivos para o próprio homem. Mas a principal questão da crise da masculinidade atual está ligada a uma profunda transformação socioeconômica de mais de um século. O século 19 foi o do triunfo da virilidade, do heroísmo, da coragem. O século 20 foi o crepúsculo dessas certezas. Começou pelo colapso do mito guerreiro, que se seguiu às guerras coloniais. No século 19, a sociedade europeia vivia no ritmo da guerra, na figura heroica do soldado que avança em pé no campo de batalha, enfrentando os tiros. Mas, na Primeira Guerra (1914-1918), o soldado tem medo, fome, frio. E ocorreram também transformações no mundo do trabalho. No século 19, havia a imagem do proletário orgulhoso de sua ferramenta, da valorização do labor pela força e pelos músculos. Os dois totalitarismos, o comunismo da União Soviética e o nazismo da Alemanha, têm em comum esse culto do músculo. Vieram a burocratização das economias, a terceirização das profissões, a precariedade e o desemprego de massa. A imagem da força viril se depreciou muito. As profissões valorizadas hoje são aquelas em que se está sentado em uma poltrona, nas quais as mulheres são tão eficientes quanto os homens. A força se depreciou. E isso não é consequência das mulheres, mas de uma importante evolução social. Por outro lado, a violência continua a ser valorizada. É algo ambíguo e paradoxal. Viver da força perdeu valor, mas as condutas viris, a luta, os combates esportivos, não. Mas mesmo isso está mudando, porque as mulheres também praticam esportes extremos. Tudo que era atributo exclusivo do sexo masculino agora deve ser partilhado.

Você acusa um feminismo mais radical de não se interessar pelo homem, visto apenas como inimigo. Um certo feminismo, justificadamente, viu o homem como predador, culpado pela dominação. Mas esqueceu que os homens não são uma categoria homogênea. Nem todos os homens são maus, canalhas, e nem todas as mulheres são vítimas. Seria simples demais. O feminismo que mais faz barulho é o vitimário. E os raros homens que se exprimem sobre o tema são também vitimários. Na maioria dos casos são pessoas de extrema direita. Por trás disso, há um discurso bastante retrógrado, em torno da família tradicional, da mulher do lar, que cuida dos filhos etc. E há esta ideia de que a mulher é a culpada. Mas, se todo mundo é culpado, todo mundo é inocente. É preciso sair disso, acabar com esta guerra de sexos. Os movimentos #MeToo e #BalanceTonPorc (“denuncie seu porco”, mobilização francesa) tiveram um lado muito positivo, porque foi o fim da negação das violências cometidas contra as mulheres e da cultura do silêncio. Ao mesmo tempo, contribuíram para caricaturar a masculinidade como predação sexual. Todos são porcos. Isso me incomodou. Compreendi que havia uma ideologia dos sexos, global, que prefiro chamar de “viriarcal” em vez de “patriarcal”, que oprimiu os dois sexos. É uma ideologia da dominação do homem sobre a mulher, mas também do homem sobre o homem.

Por que você usa sistema “viriarcal” e não “patriarcal”? Na realidade, são os dois, mas prefiro o termo “viriarcal”. No sânscrito, “vir” significa “herói”. Define o homem como detentor do poder, seja pai ou não. A paternidade é um marco viril determinante, mas o patriarcado é apenas uma parte do “viriarcado”.

E por que o termo “masculismo”? Para mim, “masculismo” é similiar ao feminismo, ou seja, a luta contra os preconceitos sexistas masculinos. Não gosto desta ideia de que todos os homens são maus. Houve vários que lutaram e defenderam os direitos das mulheres — como Condorcet (1743-1794) e Diderot (1713-1784), para citar dois nomes do Iluminismo. O masculismo é um convite para que os homens a se apropriem dessas questões e a compreendam que os dois sexos são prisioneiros de preconceitos sexistas. Há uma frase do sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) que diz que “a virilidade é ao mesmo tempo um privilégio e uma armadilha”. O problema é que, por muito tempo, os homens não enxergaram a armadilha. A homofobia me parece uma violência insuportável. O feminino é desvalorizado, a afeminação incomoda e é julgada degradante. Há uma confusão entre sexualidade e afeminação: há homens afeminados que são heterossexuais e homossexuais que são muito viris. A França — e a Europa em geral — é ainda um país muito homofóbico. Historicamente, a escravidão também é uma violência de homem a homem, com uns ontologicamente superiores a outros. Isso foi teorizado por Aristóteles, grande pensador do Ocidente, mas também bastante influente nos mundos árabe e persa. Se o cidadão desejar ter atividades nobres, como a guerra, a meditação filosófica e a política, é preciso que seres ontologicamente inferiores se coloquem a seu serviço, ou seja, as mulheres e os escravos. Essa é uma ideia que traçou seu caminho e que ainda está no espírito do racista, do antissemita, do xenófobo, do colonialista. Temos os monoteísmos masculinos, com a ideia de um Deus masculino todo-poderoso e dominador que coloca a mulher a seu serviço. O Direito também vai internalizar essa inferioridade feminina nos textos da lei, com direitos diferentes. A medicina e a biologia idem, desde seus primórdios vão considerar que a excelência humana é o “vir”. A mulher é uma versão degenerada. Aristóteles, um dos primeiros anatomistas e um grande biologista, diz que um bebê do sexo feminino é uma anomalia da gestação. Ainda temos sociedades em que se lamenta o nascimento de uma menina. A filosofia teve um papel central, modelando a palavra feminina. Quando se fala da mulher-objeto, não é apenas como objeto de desejo, mas também de pensamento. A mulher nunca é um sujeito de seu desejo e de sua definição. Quando era estudante de filosofia, sentia o fato de ser uma mulher como um detalhe. Havia cursos inteiros sobre o desejo, mas unicamente sobre o desejo masculino, de Epicuro etc. E achava isso normal. Acabava aceitando a ideia de que a feminilidade era algo marginal, secundário. As mulheres podiam refletir, mas não pensar, o que não é a mesma coisa. Pensar o mundo, conceitualizar.  Como estudante [de filosofia], devia quase esquecer que era mulher, porque não era uma postura filosófica. Isso me perturbou muito. Era jovem, todos meus professores eram homens, era algo que não podia questionar. À parte Simone de Beauvoir, as mulheres filósofas, como Hannah Arendt, falaram pouco dessa questão, porque não era uma questão verdadeiramente filosófica, mas algo considerado menor. Essas ideias todas puderam atravessar os séculos porque dispunham de um sólido bloco de sustentação: o direito, a medicina, a biologia, a filosofia, a mitologia, as religiões. Por isso o trabalho de desconstrução é muito complicado, porque não se trata de destruir, mas de enxergar como tudo foi construído.

Na sua opinião, muitas mulheres interiorizaram os preconceitos sexistas, o que revelaria a força dessa construção da virilidade. As críticas mais violentas que tive do meu livro vieram de mulheres. As feministas radicais não suportam que se fale do homem enquanto vítima. No outro extremo, havia as ultraconservadoras que pensam que perturbar a polaridade tradicional dos papéis sexuais e destronar a virilidade é fragilizar a família e a ordem simbólica da sociedade. E havia uma terceira categoria, a de mulheres me acusando de desmasculinizar os homens e dizendo que Olivia Gazalé precisava mesmo era fazer sexo de quatro de forma rude. Certamente, elas não leram o livro. Não me interessou ter uma posição ideológica, mas questionar, interrogar. Não podemos viver num universo completamente asséptico, em que homens e mulheres andam de mãos dadas e tudo está resolvido. A realidade é mais complexa do que isso.

Para você, o futuro do feminismo depende do “masculismo”. Poderia explicar? Apesar do fato de o feminismo ter vencido há décadas a batalha ideológica na maioria das grandes democracias ocidentais, há ainda um longo caminho a percorrer. Esse caminho, o futuro do feminismo, não está apenas nas mãos das mulheres. Já vimos os limites disso. O feminismo havia se tornado quase um palavrão antes do #MeToo. Felizmente, o espectro se ampliou, e os homens, aderindo ao combate, têm a oportunidade de provar que a luta é pela emancipação em seu conjunto. O problema é um só: o sexismo.

Você diz que vivemos, hoje, uma importante mutação antropológica. Em que sentido? A mutação antropológica se dá no fato de que pela primeira vez a palavra das mulheres foi ouvida. Saímos da culpabilização da vítima. Desde a origem da civilização, a palavra da mulher foi sistematicamente descreditada, e seu ventre foi considerado como algo que se pode apropriar livremente. Na origem, a mulher é a predadora, a demoníaca, a tentadora, e podemos remontar a Lilith, Eva, Pandora ou mesmo Helena, que provoca a Guerra de Troia.  É uma mutação antropológica importante porque foi, enfim, o direito para as mulheres serem ouvidas sem serem acusadas, e encerrou com uma longa cultura do silêncio. Sófocles disse às mulheres: “O melhor ornamento de seu sexo é o silêncio”. E Péricles: “A maior honra para uma mulher é que não se fale dela”. A cultura do estupro está ligada também à representação do masculino, na ideia de que o homem faz a demonstração de sua força, seu poder — guerreiro, militar, financeiro —, pela potência sexual. Isso é uma verdadeira armadilha. Para Harvey Weinstein ou Dominique Strauss-Kahn, a continuação normal da expressão do poder é a possessão do corpo das mulheres. E sempre foi assim. Todos os reis, todos os homens de poder sempre se autorizaram a tudo em questão sexual. Há uma mutação antropológica importante porque todas essas questões-tabu, que eram mal pensadas, finalmente são faladas. E a vergonha mudou de lado. A mulher agredida sexualmente, verbalmente ou fisicamente, se sente culpada. Eu tive essa experiência, como muitas mulheres, em momentos difíceis no metrô. Nunca falei em casa, porque me sentia suja. Só queria me lavar e me calar. É um reflexo. Serão necessárias ainda dezenas de anos para compreender o que há por trás desse silêncio. Todo esse ruído que fizemos foi a expressão de um longo silêncio. Há desvios, excessos, denúncias caluniosas, acusações infundadas, mas penso que isso é marginal. A imensa maioria das mulheres que falou, sofreu. E, enfim, leva-se em consideração esse sofrimento.

Os movimentos #MeToo e #BalanceTonPorc provocaram reações dos homens, mas também de mulheres, algumas denunciando exageros e reivindicando o direito de serem “importunadas”, como no manifesto publicado na França e assinado, entre outras, por Catherine Deneuve. Qual sua opinião sobre isso? Primeiro, houve um longo silêncio dos homens. E, de repente, alguns começaram a se exprimir. Alguns disseram que seria o fim da galanteio, que não se poderia mais seduzir. Eles confundem tudo. Nunca se proibiu a sedução, mas sim a violência. Não é a mesma coisa. É verdade que sedução é bastante ambivalente e que a sexualidade tem faces problemáticas. Georges Bataille mostrou que há sempre um certo coeficiente de violência e de selvageria que pode emergir. Mas isso entre relações consentidas e no quadro de um jogo erótico. Mas na violência em forma de agressão não há erotismo. A carta assinada por Catherine Deneuve e outras signatárias dizia que as mulheres podiam gozar durante o estupro. Talvez em filmes pornôs ou na literatura. O estupro é um crime, não se pode esquecer que se faz com golpes e violência, não há nada de prazeroso para as mulheres. Fiquei um pouco incomodada, porque aqui na França há esta tradição de galantaria, que teria nascido nas cortes aristocráticas. Há uma ideia bastante romanesca e literária de que, se um cavalheiro for paciente e persistente, a fortaleza acabará por ceder, como se o amor fosse uma guerra. É a ideia de que o “não” significará, mais tarde, um “sim”, se você insistir. É a ideia de uma rendição inelutável da mulher, e que pode induzir a confusões. Não se pode esquecer que a galantaria aristocrática era reservada às mulheres da alta sociedade. No meio popular, as mulheres sempre foram maltratadas. Era normal violar a doméstica que dormia no sótão —pelo pai, o filho, o padre, todo mundo. Acho uma pena que todo esse debate, que era indispensável e que trouxe uma palavra inédita e importante, tenha sido esvaziado por polemistas sob o pretexto de que a sedução e a paquera iriam desaparecer.

Seu ensaio é um convite para que os homens se juntem à causa feminina? Durante muito tempo, as feministas viram sua luta como um combate contra os homens. Hoje, penso que deve ser um combate com os homens. É preciso comprometê-los neste embate, mas para que isso ocorra é preciso que entendam que essa situação os oprime também. O fato é que toda essa questão passou a ser tratada diferentemente depois de #MeToo. É neste sentido que falo de uma mutação antropológica. Num primeiro momento, os homens se sentiram acusados. E veio o segundo tempo, o da reflexão: não somos todos culpados, mas há algo de errado com a virilidade e é preciso mudar. Por isso que este movimento é fundador e importante.

Para você, o feminismo é um humanismo. Em que sentido? É a emancipação do gênero humano em seu todo. É um humanismo porque os homens também têm a ganhar com isso. Não falo dos feminismos radicais, mas enquanto luta contra os preconceitos sexistas, pela igualdade etc. Se as novas gerações forem criadas por homens e mulheres pró-feministas, penso que teremos uma humanidade melhor. A homofobia é um anti-humanismo. Trata-se de uma luta de liberação contra coisas que são alienadoras e injunções mutiladoras. Um homem que interdita a expressão de sua sensibilidade, seu sofrimento, seu medo, se priva de uma grande parte de sua humanidade. O mesmo para uma mulher que se priva de seu gosto pela coragem, pelo desafio, por tudo que é identificado como masculino.

Ao mesmo tempo, você nota uma forte reconquista virilista por meio de movimentos de homens que se estimam vítimas de uma feminização da sociedade, e cita a contribuição da revolta do “angry white man” na eleição de Donald Trump, “um falocrata assumido”, nos Estados Unidos. Há também o “incel” [“celibatário involuntário”, em geral integrante de grupos misóginos e de extrema direita], como aquele implicado na matança de Toronto, em 23 abril de 2018. Existem movimentos com posições quase caricaturais. A cada vez que a virilidade é ameaçada, ela reage de forma extrema, com representações e símbolos fortes, e manifestações de hipervirilidade exacerbada. Esse jovem que investiu com sua caminhonete contra pedestres em Toronto (Alek Minassian, estudante de 25 anos) foi aclamado como um herói na internet. É uma utopia querer acabar com a estupidez. Isso é uma forma de ignorância, de preconceitos, de simplificação das coisas e de total ausência de perspectiva histórica. Quando os virilistas falam que “antes era melhor”, se referem ao século 19, quando se tinha uma sociedade inteira virilista. Mas se esquecem de todos os sobressaltos dessa construção dos sexos, que não foi linear, mas completamente errática, com avanços e recuos em diferentes sociedades. Sou bastante otimista. Penso que essas reações hipervirilistas são minoritárias em relação à onda do progresso e da emancipação dos sexos. Mas há também fontes de inquietações. Quando alguém que se diz poderoso por “agarrar as mulheres pela buceta” é eleito presidente de uma das grandes potências mundiais, isso faz questionar. Muitas mulheres que estão nessa cultura virilista consideram Trump o arquétipo do verdadeiro homem.

O livro aborda também as artes como elemento fundador dessa virilidade. O pintor Rubens (1577-1640) falava que nos homens há um triângulo isósceles, perfeito pela igualdade de seus lados, em referência à Trindade. Ele mostra que todas as formas nas mulheres não são perfeitas. Somos saídas da costela de Adão, quase um acidente de percurso. O paradoxal na história da arte é que sempre o homem é o padrão da perfeição. Ao mesmo tempo, temos imagens da mulher idealizada, como a Vênus de Botticelli, mas que nunca são consideradas perfeitas, e sim tentadoras. No homem, a perfeição física é o reflexo de sua perfeição moral. Isso é o que diz Rubens. Deus é viril. A deusa da fecundidade e da fertilidade foi destronada no fim do neolítico pela figura do deus homem. Antes da Antiguidade, existiram sociedades matrilineares. Não era matriarcado, o que seria um patriarcado invertido, nunca houve isso. Eram sociedades em que havia um melhor equilíbrio de poder, principalmente entre os celtas, etruscos e egípcios. Não se conhecia a função fecundadora do esperma, e a maternidade era vista como um poder sobrenatural da mulher. As divindades eram femininas. A mulher era venerada, havia sacerdotisas e mulheres profetas. Quando o homem compreendeu o mecanismo da procriação, colocou toda a origem do nascimento no esperma, líquido mágico e divino, e a mulher foi definida apenas como um receptáculo passivo. A mulher foi destronada de seu poder e surgiu um deus masculino todo-poderoso, guerreiro.

Macron muda de estilo para sobreviver a protestos na França

Macron faz uma selfie com estudantes durante encontro como parte do Grande Debate Nacional, em Etang-sur-Arroux. © Emmaneul FoudrotT/Reuters

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – A revolta dos coletes amarelos na França, em manifestações pelo país desde novembro, obrigou o presidente Emmanuel Macron a alterar seu método de governança. Saiu o presidente jupiteriano que se reivindicava como o mestre do tempo e dizia que manteria seu ritmo de reformas a todo custo, em uma forma de governar sem os vícios do passado e acima das pautas da mídia. Encurralado pelas ruas e de olho nas eleições europeias, assumiu o líder que, de mangas arregaçadas, têm feito maratonas de debates com prefeitos ou estudantes em discursos de tom conciliador, em uma tentativa de se desvencilhar da imagem arrogante de “presidente dos ricos” que lhe colou desde seus primeiros meses no poder. Para analistas, o novo estilo presidencial contribui para estancar sua queda de popularidade, mas a sobrevivência do governo Macron dependerá das consequências práticas da consulta popular nacional lançada pelo governo, com término em 15 de março, e dos resultados das urnas no pleito para o Parlamento Europeu, em 26 de maio.

Além dos debates, Macron tem multiplicado encontros com lideranças partidárias e da sociedade civil. Alterações foram promovidas em sua equipe no Palácio do Eliseu: a saída de colaboradores de longa data deu lugar à chegada de outros nomes para criar uma nova dinâmica na Presidência. Antes um rigoroso crítico dos frequentes encontros de seu antecessor, François Hollande, com jornalistas, mudou de ideia: recentemente, convidou seis representantes da mídia para uma conversa de duas horas e meia em seu gabinete. Em seu forçado processo de mutação, chegou mesmo a ensaiar um mea-culpa por suas constantes frases de efeito, percebidas como um desprezo à população, que tanto prejudicaram sua imagem.

Para Bruno Cautrès, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), Macron procura, sobretudo, ganhar tempo:

— Ele gere a urgência para ocupar terreno, obter novas margens de popularidade e depois prosseguir com suas reformas, não penso que fundamentalmente vá alterar seu programa. Há uma real estratégia em relação à comunicação, na tentativa de reinventar um novo Emmanuel Macron junto à opinião pública. Nas reformas do primeiro período de seu governo, venceu a oposição dos sindicalistas da CGT e os funcionários da SNCF (estatal ferroviária), mas os coletes amarelos o colocaram de joelhos. Nesta crise, perdeu sua invencibilidade.

O presidente no lançamento do Grande Debate, em encontro de quase 7 horas com 600 prefeitos, em 15 de janeiro, em Grand Bourgtheroulde. © Philippe Wojazer/Reuters

Risco de aliança à italiana

O analista político Romain Lachat vê, igualmente, mais uma mudança de timing, de método e de tom do que de rumos de governo.

— Concessões foram feitas e medidas adotadas para tentar frear as reivindicações no seio dos coletes amarelos, mas não se tem a impressão que Macron tenha decidido aplicar uma política fundamentalmente diferente. No começo do movimento, ele brilhou por sua ausência, demorou muito para mostrar que levava a sério as demandas. Hoje, procura mostrar uma nova imagem, mais à escuta, mais humilde, para mudar a má percepção do início, mas bastará uma nova escorregada para tudo desmoronar novamente.

Na sondagem feita na semana passada pelo Instituto Elab, pela primeira vez uma maioria de franceses entrevistados, 56%, afirmou que os coletes amarelos deveriam cessar sua mobilização, e 64% estimaram que as manifestações aos sábados se tornaram distantes das reivindicações iniciais do movimento. O chamado Grande Debate, principal instrumento do governo para esvaziar os protestos, já organizou mais de 2.500 reuniões no país e seu site internet recolheu cerca de 850 mil sugestões, feitas por 320 mil inscritos. A oposição não perdeu tempo em acusar o presidente de usar os encontros como palco de campanha para as eleições europeias.

Para Cautrès, parte do sucesso de Macron dependerá da forma como serão hierarquizadas as proposições dos franceses no Grande Debate, onde tem emergido, principalmente, questões sobre justiça fiscal e a adoção do Referendo de Iniciativa Cidadã (RIC).

— Estive em muitos dos debates. Há muitos pedidos de retorno do Imposto de Solidariedade sobre a Fortuna (ISF). E se Macron disser que o RIC será utilizado apenas em nível local, não bastará. Ele adota, hoje, uma estratégia de curto prazo, que nada nos diz sobre como terminará seu mandato e o que poderá propor aos franceses nas eleições presidenciais de 2022. Mas ainda é muito cedo para afirmar se terá condições reais de se recandidatar.

Os dois últimos presidentes franceses não conseguiram emplacar um segundo mandato: o conservador Nicolas Sarkozy fracassou nas urnas e o socialista François Hollande nem ousou entrar na disputa. No horizonte próximo, as consequências desta crise poderão ser verificadas após as eleições europeias de maio, cruciais, segundo ele, para o futuro do atual governo e com impacto no pleito de 2022.

– No momento, a Reunião Nacional (RN), a extrema direita de Marine Le Pen, é o receptáculo de muitas das tensões relacionadas a Macron. A chave da vida política na França, hoje, é a escolha que fará a direita para 2022. Há sinais de uma possível solução à italiana, com uma aliança das direitas conservadora e nacionalista. Mas se a República em Marcha (LREM, partido do governo) vencer o pleito europeu, aumentam as margens de manobra de Macron para 2022.

Alívio nas pesquisas

Para o analista Nicolas Sauger, exceto uma surpresa, a Reunião Nacional ocupará as primeiras posições nas eleições europeias, dificultando os planos presidenciais:

— A porta da extrema direita já está amplamente aberta. Há questões que inquietam a sociedade francesa, como a imigração, o desemprego, as desigualdades sociais e o meio ambiente, e para as quais, para uma parte da população, Macron não propôs respostas convincentes. Há uma forte fragmentação das oposições, e não existe, hoje, uma alternativa concreta, suficientemente confiável, para apaziguar o jogo político. Isso é ao mesmo tempo uma vantagem e a principal dificuldade de Macron — avalia.

Segundo pesquisa do Instituto Ifop, a RN foi apontada como a principal força de oposição no país (38%), à frente da esquerda radical da França Insubmissa (31%) e da direita tradicional de Os Republicanos (19%). Na mesma sondagem, o índice de aprovação do presidente alcançou 34% neste início de fevereiro, mesmo nível de outubro de 2018 (33%) — antes do surgimento dos coletes amarelos —, contra 64% de desaprovação. Em dezembro, sua popularidade era de apenas 23%.

Cautrès acredita, no entanto, que as tentativas de Macron de criar um novo estilo e de se atribuir o crédito do Grande Debate como uma iniciativa espontânea de concessão da palavra à população não vingarão.

— A população faz a diferença entre os coletes amarelos e os vândalos que quebram tudo. E bem mais do que as imagens de violência das manifestações, está enraizada na opinião pública a ideia de que as mudanças de atitude e o debate nacional só ocorreram porque houve uma crise importante que o presidente tardou em reconhecer. E isso poderá sempre rebater negativamente em Macron

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“JÁ COLOCAMOS MACRON DE JOELHO, AGORA TEMOS DE DERRUBÁ-LO”, diz líder colete amarelo

Expoente do movimento, François Boulo afirma que presidente francês investiu na “estratégia do caos”. © Fernando Eichenberg

PARIS – O advogado François Boulo, 32 anos, se tornou nas últimas semanas um dos expoentes do movimento dos coletes amarelos, reputado por suas intervenções de tom mais didático e menos belicosas em relação aos discursos de outros líderes do movimento. Desde novembro, o movimento realiza manifestações semanais, que começaram contra uma taxa nos combustíveis mas acabaram por concentrar a insatisfação dos franceses. “Hoje, estamos numa relação de forças políticas para tentar deter o quinquênio de Macron e evitar que quebre ainda mais o país, que faça a reforma da aposentadoria, mude o seguro-desemprego ou continue com as privatizações. Nosso objetivo é obter medidas concretas que melhorem a vida das pessoas”, disse Boulo ao GLOBO.

Como explica o movimento dos coletes amarelos?

Na minha prática profissional, já notava a cólera surda que crescia. Quando vi o movimento emergir por causa da taxa do combustível, logo notei que ultrapassava amplamente esse contexto, abraçando dois temas fundamentais: as injustiças fiscal e social. Há uma distribuição das riquezas totalmente desigual, que se faz em proveito do 1% da população mais rica. O corolário é a crise de representatividade, pois se chegamos a esse ponto é porque nossos parlamentares não fizeram corretamente o trabalho há 45 anos. É o momento de haver uma intervenção direta do povo na democracia para corrigir isso.

As manifestações vão continuar?

Não sei. O problema é que o Poder Executivo utilizou voluntariamente a estratégia do caos. Por meio das ordens que deram às forças de segurança, encorajaram as violências. E jogaram lenha na fogueira ao qualificar os coletes amarelos de multidão raivosa. Irritaram as pessoas para estimular violência, criar o caos, o medo, e dissuadir as pessoas de se manifestarem. A questão é permitir ao máximo possível de pessoas de se mobilizar, de forma pacífica e segura, e vamos trabalhar nisso nos próximos dias e semanas.

Segundo as pesquisas, crescem os descontentes com as repetidas violências aos sábados…

É preciso diferenciar. Em relação às reivindicações, segundo as sondagens, entre 75% e 80% das pessoas aprovam, hoje, o movimento. A porcentagem baixa, é verdade, em relação às ações, pois ninguém quer ver violência. Mas sobre a legitimidade do movimento, a aprovação é alta.

Você aprova o Grande Debate?

De maneira nenhuma. Basta ter uma abordagem racional. Macron já descartou as reivindicações dos coletes amarelos. Não quer questionar os dispositivos fiscais e anunciou que terá de reduzir os serviços públicos. Quem vai pagar por isso serão sempre os mesmos, e não serão os ricos. A ideia é amplificar ainda mais a relação de forças. Mesmo que Macron esteja bastante fragilizado, ele quer continuar. Já o colocamos de joelho, agora temos de derrubá-lo. Ele é o último representante da política que conhecemos há décadas. Só os ingênuos acreditaram que era alguém novo. Houve uma propaganda midiática para vendê-lo como um jovem dinâmico antissistema, mas ele é a própria encarnação do sistema.

Os coletes amarelos devem se organizar politicamente?

Já indiquei ser contra e que não serve a nada concorrer nas eleições europeias de maio. Estruturar um movimento político coordenado a partir de manifestações começadas nas rotatórias é uma tarefa imensa. Para as demais eleições, veremos quando chegar o momento. Hoje, estamos numa relação de forças políticas para tentar deter o quinquênio de Macron e evitar que quebre ainda mais o país, que faça a reforma da aposentadoria, mude o seguro-desemprego ou continue com as privatizações. Nosso objetivo é obter medidas concretas que melhorem a vida das pessoas.

Você acredita nas mudanças de atitude de Macron?

É só comunicação. Ele continua com suas pequenas frases, possui o desprezo de classe, é algo quase genético. Eu predizia que a França sairia à rua porque ele reforçaria a política das desigualdades que conhecemos há décadas e iria acrescentar a arrogância da juventude — não tinha nenhuma experiência política e sempre considera ter razão —, com desprezo e insultos. Um presidente que insulta seu povo de “gauleses refratários”, “basta atravessar a rua para achar um emprego”, isso é delírio. Forçosamente, isso provocou cólera nas pessoas.

É a favor da Europa?

Sou a favor da ideia da União Europeia, mas estes tratados atuais são tóxicos, fixam uma política econômica que nos condena à austeridade, à quebra dos serviços públicos e ao aumento das desigualdades. Não podemos continuar assim. Sou por uma Europa que funcione para o povo e não para grupos, lobbies e acionários. Se isso não for possível, então que saiamos da UE.

Como responde às críticas de que o movimento se tornou um imenso buraco que aspira racistas, antissemitas, xenófobos ou homofóbicos?

Vista sua enorme capacidade de federar, evidentemente que no movimento se vê todo o povo francês. Pode-se encontrar antissemitas, homofóbicos, é a imagem da sociedade francesa, que inclui pessoas com ideias condenáveis, mas que são minorias.

Qual é sua tendência política?

Para mim, a clivagem esquerda-direita não existe mais. Foi totalmente esvaziada de seu conteúdo pelos tratados europeus. Hoje, estamos numa clivagem entre globalistas e soberanistas. E por trás do termo soberanista, contrariamente à caricatura que se faz na França, existe a democracia. De Gaulle dizia que a democracia se confunde com a soberania nacional. É preciso que o Estado seja soberano para que a democracia seja exercida plenamente.

Você aprovou o encontro de coletes amarelos com o vice-premier e líder nacionalista italiano Luigi Di Maio?

Os italianos, ao menos, buscam questionar os tratados europeus e o poder da Comissão Europeia. Nisso, estou de acordo. Mas não é porque você concorda com uma proposição que aprova todo o restante do corpo ideológico.

L’Humanité, centenário jornal da esquerda francesa, luta para sobreviver em meio à grave crise financeira

Homem vende o L’Humanité em frente a um café, em Pantin, subúrbio de Paris, em 12 de abril de 1959. © Mémoires d’Humanité / Archives départementales de la Seine-Saint-Denis

FERNANDO EICHENBERG / REVISTA ÉPOCA

PARIS – Rosa Moussaoui entrou para o jornal L’Humanité em 2004, ano do centenário da histórica publicação francesa. “Estou aqui há 15 anos por convicção. É um jornal enraizado nas lutas sociais, na solidariedade internacional e um reflexo de combates ecologistas e feministas. Essa identidade política é extremamente importante para mim. Esse jornal sempre sobreviveu pela vontade daqueles que o fazem e o leem”, diz, assentada na redação situada no número 5 da rua Pleyel, em um moderno complexo de escritórios em Saint-Denis, subúrbio norte de Paris. O tom militante emerge da crise vivida nestas semanas pelo jornal. A secular aventura do L’Humanité, afundado em dívidas, esteve ameaçada de chegar ao fim. No último dia 7, no entanto, o Tribunal de Bobigny concedeu uma sobrevida à publicação e aceitou o pedido de recuperação judicial, com permissão de continuar em atividade por um período de observação de seis meses. Uma nova audiência está marcada para o dia 27 de março.

Ex-sede do L’Humanité, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, em Saint-Denis. © Reprodução

Não é a primeira vez que as rotativas do emblemático diário francês correm o risco de parar em definitivo. Não muito longe dali, um prédio de amplas curvas e paredes envidraçadas, inaugurado em 1989 e classificado como monumento histórico nacional, é testemunha das consecutivas dificuldades do L’Humanité, também chamado pelos franceses de L’Huma (pronuncia-se “lumá”). A obra, nas proximidades da célebre Basílica de Saint-Denis, foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) para abrigar a sede do jornal. Mas em 2008, sem ter como pagar as contas, a redação se viu obrigada a trocar de endereço e, dois anos depois, vender ao Estado francês a prestigiosa criação do arquiteto brasileiro, comunista convicto, por € 12 milhões. “L’Humanité sempre foi um jornal frágil, desde sua fundação, porque não possui acionistas e não é associado a capitais. Essa fragilidade faz parte de nosso DNA”, admite Rosa.

Fundado em 1904 pelo político Jean Jaurès (1859-1914) como uma tribuna para as correntes do movimento socialista e operário, o jornal acumulou em sua longa trajetória períodos de “luzes e de sombras”, como costumam definir os historiadores. O assassinato de Jaurès, infatigável pacifista, em 31 de julho de 1914 – três dias antes de a França entrar na Primeira Guerra Mundial -, enquanto jantava no Café du Croissant, próximo da então sede do L’Humanité, na rua Montmartre, abalou a publicação. “Jaurès é uma personalidade extremamente importante na França, e sua morte provocou uma guinada. Mas o jornal que deixou como herança acompanhou todos os grandes momentos da vida deste país, no combate pela paz na Primeira Guerra Mundial, nas greves de 1936, na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial (foi publicado clandestinamente por quatro anos), na Liberação e em todas as lutas anticoloniais até hoje. Em 2005, fomos o único jornal diário a dizer não à Constituição europeia”, orgulha-se Rosa.

Primeira página do jornal na Liberação de Paris, na Segunda Guerra MundiaL. © Reprodução

A partir de 1920, o jornal se tornou órgão oficial da Seção Francesa da Internacional Comunista (SFIC), que viria a ser o Partido Comunista Francês (PCF), com direito a foice e martelo sob o título na primeira página. Passadas sete décadas, em 1994 a menção na capa ” Órgão central do PCF” foi substituída por “Jornal do PCF” até desaparecer completamente em 18 de março de 1999, como parte de uma reforma editorial em meio a mais uma crise financeira. “Temos ainda uma grande proximidade com membros do PCF, somos ligados a este mundo comunista, mas também ao restante do movimento progressista e social. Hoje, é um jornal arco-íris que permite a pessoas de diferentes convicções se identifiquem com ele. Em nossas páginas cotidianas de debates, vozes se confrontam com opiniões diversas”, defende Rosa.

A cega defesa dos desmandos da União Soviética e do stalinismo, no entanto, é uma mancha que cola ainda hoje na imagem do L’Huma. No dia da morte do ditador soviético Josef Stálin, em 5 de março de 1953, o jornal titulou em edição especial: “Luto por todos os povos que exprimem, em recolhimento, seu imenso amor pelo grande Stálin”. Três anos depois, quando os tanques soviéticos invadiram a Hungria para esmagar a Revolução de 1956, o L’Humanité celebrou: “Budapeste volta a sorrir em meio a suas feridas”.

Capa do jornal na morte de Joséf Stálin, em 1953, noms sombrios anos da história do L’Humanité. © Reprodução

Marie-José Sirach, há 25 anos no jornal, acredita que não se pode varrer o passado: “Isso faz parte da nossa história, e é preciso encará-la de frente. O L’Huma foi o órgão central do PCF, justificava tudo o que se fazia, é nossa parte sombria. Por outro lado, ser jornalista naquele tempo comunista devia ser complicado, pois muitas pessoas na redação eram críticas. Louis Aragon (poeta e escritor francês, 1897-1982), por exemplo, defendia nas páginas do L’Huma toda uma geração de poetas russos que morreu no gulag ou foi proibida de publicar. O jornal era sensível a essas pessoas com um ideal comunista que não correspondia ao stalinismo”, relativiza.

Rosa Moussaoui e Marie-José Sirach, jornalistas do L’Humanité. © Fernando Eichenberg

Ela prefere destacar a mobilização do jornal em torno das frentes antifascistas desde os anos 1930; seu papel na revelação de massacres cometidos pelas forças do general Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939); o engajamento anticolonial nas guerras da Indochina (1946-1954) e da Argélia (1954-1962) e contra a guerra do Vietnã (1959-1975); a luta pelos direitos políticos das mulheres na França ou a solidariedade a Angela Davis no combate pelos direitos cívicos nos Estados Unidos – a ativista americana foi, em 2013, convidada como editora-chefe do jornal por um dia. “L’Huma constrói passarelas para mostrar que não se está só. É um jornal que vive, respira, por vezes tosse um pouco, hoje atravessa uma grande crise, mas temos recebido mensagens de apoio e de carinho, e se desaparecer será um mau sinal para a democracia na França”, alerta.

Para poder prosseguir em sua resistência, o L’Humanité lançou uma vasta campanha de doações e de assinaturas. Até a semana passada, a arrecadação havia alcançado pouco mais de € 1 milhão. Personalidades de diferentes áreas e políticos de todas as tendências, inclusive da direita, têm se manifestado em apoio ao jornal. O deputado Aurélien Pradié, do partido conservador Os Republicanos, tuitou: “O L’Humanité não costuma defender as minhas ideias. Mas tenho um profundo respeito pelos seus valores e pela exigência de seus jornalistas. O debate público precisa do L’Huma. Acabo de fazer uma assinatura. Não hesitem…”

Capa na edição de três dias após o atentado no jornal Charlie Hebdo, em janeiro de 2015. © Reprodução

No próximo dia 22, uma jornada de solidariedade será organizada no espaço La Bellevilloise, em Paris. Para engordar seus cofres, o jornal conta ainda com sua tradicional “Fête de L’Huma”, evento anual realizado no parque La Courneuve, em setembro, que no ano passado alcançou o recorde de afluência com 800 mil visitantes em três dias. A festa foi criada em 1930 como mais uma iniciativa para enfrentar a falta de recursos do jornal, e oferece inúmeros debates, exposições e concertos. Já passaram por seus palcos nomes como Jacques Brel, George Brassens, Juliette Gréco, Pink Floyd, Joan Baez, Leonard Cohen, Patti Smith e New Order. Na edição de 2018, uma das principais atrações foi o grupo escocês Franz Ferdinand, mas não faltou também a auto-ironia do Soviet Suprem, duo francês formado por Sylvester Staline e John Lénine, com uma mistura de música soviética-balcânica, eletrônica e hip hop, em uma tentativa bem-humorada de imaginar “um gênero que existiria se a URSS tivesse vencido a Guerra Fria”.

O clima na redação entre os 175 assalariados – 124 jornalistas – ainda é de preocupação e angústia em relação ao futuro da publicação, mas também “extremamente combativo”, assegura Rosa: “Pensamos nos nossos predecessores. Anatole France (escritor francês,1844-1924) escreveu, certa vez, que não havia dinheiro nem para comprar velas. Vamos fazer com que este jornal sobreviva. Existe uma ideia de que a França sem o L’Humanité não seria a França. As pessoas precisam do L’Huma pela sua voz singular e dissidente. É uma parte do nosso patrimônio nacional que não se quer ver destruída”.

Obra de Vasarely recebe retrospectiva inédita no Centro Pompidou

Precursor das artes ótica e cinética, Vasarely têm mais de 300 obras em exibição no Centro Pompidou, em Paris. © Fotos Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – A arte de Victor Vasarely (1906-1977), húngaro naturalizado francês, ganha sua primeira grande retrospectiva na França, com 300 obras, objetos e documentos expostos no Centre Pompidou, de 6 de fevereiro até 6 de maio. Considerado precursor das artes ótica (op art) e cinética, suas criações invadiram o universo da pintura, da escultura, da moda, do design, da publicidade ou da arquitetura. Vasarely é a ilustração de “Space Oddity”, álbum cult de David Bowie, e também o logotipo da Renault, a sala de refeições da sede do Deutsche Bank, capas de livros dos filósofos Jean-Paul Sartre e E.M. Cioran, louças de porcelana, intervenções em estações de trem ou em fachadas de grandes empresas.

Suas telas de figuras geométricas que parecem se mover se tornaram icônicas. “A arte plástica será cinética, multidimensional e comunitária. Abstrata, certamente, e próxima das ciências. Denunciemos as nostalgias do passado: amemos nossa época. Acabemos com a ‘Natureza’ romântica, nossa Natureza é a Bioquímica, a Astrofísica e a Mecânica Ondulatória. Afirmemos que toda criação do Homem é formal e geométrica como a estrutura secreta do universo”, defendeu, em 1954.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vasarely nasceu em Pécs, na Hungria, em 1906, e após desistir dos estudos de medicina ingressou, em 1929, na academia de artes Mühely, em Budapeste, inspirada nos vanguardismos da escola alemã Bauhaus. Em 1930, desembarcou em Paris como designer gráfico. Sua primeira exposição importante ocorreu em 1944. A retrospectiva organizada pelos curadores Michel Gauthier e Arnaud Pierre pretende mostrar que Vasarely não foi apenas o artista cujas pinturas “vibrantes e cintilantes perturbam o olhar e enganam a retina”, mas também aquele que, ao revolucionar a abstração, procurou com uma linguagem visual universal democratizar a criação. Segundo seu credo, a arte deveria ser social. “É nas multidões que se precisa difundir a arte. Esse é o espaço ilimitado”, sustentava.

No final dos anos 1960, Vasarely começou a produzir em grande escala, e foi um dos poucos franceses a conquistar os Estados Unidos no pós-guerra. Denise René (1913-2012), galerista de arte que o lançou na França, lamentou, no entanto, sua produção em demasia: “Ele cedeu à demanda e não soube administrar seu sucesso”. Vasarely morreu de um câncer na próstata em 1997, aos 90 anos. Em 1976, criou um centro arquitetônico em Aix-en-Provence, que abriga a fundação que leva seu nome. 

Itália e França travam embate às vésperas das eleições europeias

O duelo entre o presiente francês, Emmanuel Macron, e o vice-premier italiano Matteo Salvini, na ilustração da revista britânica “The Spectator”. ©Reprodução

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – A menos de quatro meses das eleições para o Parlamento Europeu, nunca foram tão afrontosas as relações entre Roma e Paris. As virulentas provocações dos líderes nacionalistas italianos contra o governo pró-europeu francês refletem o lado incendiário de um embate maior entre as forças ditas populistas e progressistas às vésperas da disputa nas urnas em maio, em um pleito que adquiriu uma inusitada importância provocada pela nova realidade política e ideológica no continente.

O vice-premier italiano e líder dos ultraconservadores da Liga do Norte, Matteo Salvini, seu colega de governo Luigi Di Maio, do Movimento 5 Estrelas, e mais recentemente o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, têm multiplicado ataques contra o presidente francês, Emmanuel Macron. “Espero que os franceses possam se libertar de um péssimo presidente, e a ocasião será em 26 de maio (data das eleições europeias)”, disparou Salvini em um vídeo publicado em seu perfil no Facebook, desejando que o país vizinho retome “seu destino e seu orgulho mal representados por um personagem como Macron”.

A ministra das Relações Europeias francesa, Nathalie Loiseau, qualificou de “inaceitáveis” as recorrentes agressões verbais italianas, ao mesmo tempo procurando minimizá-las: “Na França, temos a expressão ‘o que é excessivo é insignificante’, então, quando esses propósitos são excessivos por seu tom e seu número, eles se tornam insignificantes”, filosofou, recusando-se a participar de um “concurso do mais estúpido “.

Para o analista Nicolas Leron, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po) o bate-boca franco-italiano é inédito por sua intensidade e grau de aspereza, e uma consequência atípica das atuais crispações no seio da União Europeia (UE) entre governos populistas e pró-europeus. Segundo ele, os embates visam o eleitor nacional em um pleito europeu alçado a um novo patamar:

– As eleições europeias serão cruciais em termos de equilíbrio político nacional dos Estados membros da UE. Sempre foram consideradas como sufrágios de segunda categoria, e hoje se tornam muito importantes. Movimentos no poder na Itália criticam o governo na França e, além disso, apoiam um contramovimento político (os coletes amarelos). É uma dimensão transnacional. Se está em algo muito mais integrado, e o resultado das eleições francesas terão um impacto político direto sobre a Itália e a Europa. Há, hoje, uma forma de interdependência entre os sistemas políticos nacionais europeus.

Na sua opinião, não é ilógico que a esquerda francesa critique a direita alemã ou que os populistas e nacionalistas italianos, húngaros ou poloneses ataquem os progressistas franceses, mas o que decepciona, por vezes, é o nível político dos debates. Luigi Di Maio, que já havia encorajado os coletes amarelos a prosseguirem suas manifestações contra Macron, acusou a “França colonialista” de agravar a crise migratória ao causar o empobrecimento da África e de financiar sua própria dívida pública pela exploração dos países do continente. Suas declarações levaram a uma convocação da embaixadora da Itália em Paris pelo Ministério das Relações Exteriores francês. Já Giuseppe Conte, que até então vinha atuando como moderador, decidiu entrar no ringue ao criticar o tratado de cooperação franco-alemão assinado no último dia 22: “A verdade é que pegamos a França e a Alemanha com as mãos na botija. Eles só pensam em seus interesses nacionais. Estão zombando de nós”, alfinetou.

Para Piero Ignazi, analista político da Universidade de Bologna, a troca de farpas entre os dois lados dos Alpes transcende as campanhas para as eleições europeias:

– Não se trata apenas do que se vai fazer, por razões conjunturais, para se preparar para o pleito europeu. Há uma alteração radical da política externa italiana. Giuseppe Conte era bem mais suave, disposto a abafar as críticas, mas ele abraçou as posições mais radicais. No Fórum de Davos, mostrou uma mudança de referências da tradição favorável ao contexto multilateral e de boas relações com todos os parceiros europeus e de fora do continente. Hoje, a tendência é dividir os países entre amigos e inimigos, mesmo no interior da UE. É algo mais profundo e bem mais perigoso. Há muitas pessoas que apreciam tudo isso, porque a tendência nacionalista está enraizada na Itália e deve crescer ainda mais.

Líderes francês e italiano acirram o tom em meio à campanha eleitoral europeia.

Nessa atitude de ruptura, a Itália deve, segundo ele, ganhar apoio da opinião pública no âmbito doméstico, mas corre o risco de se ver isolada e excluída de acordos no nível da comunidade europeia ou bilateral. Ignazi admite, no entanto, a mudança de status das eleições para o Parlamento Europeu.

Os pró-europeus devem agradecer aos populistas, porque é a primeira vez que as eleições europeias assumem tal importância. Penso que haverá um número bem maior de votantes em relação a pleitos anteriores. Serão eleições bastante animadas. É bom que este debate se torne, de uma certa forma, o centro de preocupações e de receios dos eleitores. Se a Europa se tornar uma verdadeira questão política, haverá tomada de posições, o que não ocorre quando algo não nos interessa.

Christophe Bouillaud, do Instituto de Estudos Políticos de Grenoble, vê o recrudescimento das tensões como eleitoralmente benéfico para os governantes franceses e italianos: Macron se apresenta como o guardião dos valores europeus contra uma Itália nacionalista dominada por forças obscuras, e Savini-Di Maio como a dupla que poderá fundar uma nova Europa e resolver os problemas da UE que se arrastam há mais de duas décadas.

Interessante é que, dos dois lados, pessoas do segundo escalão têm palavras cada vez mais duras. No ano passado, um deputado francês (Gabriel Attal, porta-voz do partido de governo República em Marcha) disse que a posição italiana (sobre o barco humanitário Aquarius) era “de vomitar”. Do lado italiano, o subsecretário do Ministério das Relações Exteriores (Manolo Di Stefano) disse que Macron sofria de “síndrome do pênis pequeno”. Isso mostra a que nível de insultos se chegou. Do ponto de vista histórico, desde os anos 1920-30 não se tinha uma oposição franco-italiana deste nível. É uma disputa verbal, simbólica, destinada ao público interno, que serve aos dois campos

Bouillaud nota uma “europeização” das campanhas tanto pelo lado francês como pelo italiano: mesmo que os discursos eleitorais se mantenham essencialmente nacionais nos dois países, existe a ideia de que a relação de forças na UE poderá ser alterada no pleito de maio.

– A questão sobre sair ou não da UE é cada vez menos evocada por aqueles que são hostis à Europa. Líderes como Salvini querem mudar a UE de seu interior. Deste ponto de vista, a Europa se reforça, pois seus opositores, inclusive os extremistas mais ruidosos, almejam conquistar o poder no seio da UE ou ao menos assumir um papel cada vez mais importante. Isso vale também para o governo polonês, que hoje atua nas instituições europeias, tentando direcioná-las a seu favor.

Em recente visita à Polônia, Salvini convocou Varsóvia a formar uma “frente soberanista” para deflagrar  uma “primavera europeia” no continente e acabar com o eixo de dominação franco-alemão. Para Bouillaud, os três partidos tradicionais, Partido Popular Europeu (PPE), Partido Socialista Europeu (PSE) e Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (ALDE), manterão uma coalizão de maioria no Parlamento. Mas acrescenta:

– Como se prevê um crescimento da direita, haverá uma composição da coalizão mais aberta a seus representantes, com políticas que correspondem melhor a essa tendência. As sondagens apontam um melhor desempenho para os nomes à direita dentro do PPE. O cursor vai mudar para a direita – prediz.

Muçulmanas reivindicam igualdade de tratamento entre homens e mulheres nas mesquitas da França

Kahina Bahloul diz que a separação entre homenes e mulheres não tem sentido: “É um tipo de esquizofrenia. Hoje todos os dias homens e mulheres estão juntos no trabalho, na escola, na universidade” Foto: Divulgação

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Na vez em que foi orar na prestigiosa Grande Mesquita de Paris, Kahina Bahldoul se viu relegada a uma desconfortável sala no subsolo, adjacente ao banheiro masculino, onde mal se ouvia o imã que pregava exclusivamente para os homens no recinto principal, um andar acima, ao qual o acesso das mulheres era proibido.

— Mas vivi uma experiência ainda pior — conta ela. — Fomos em um grupo, homens e mulheres, a uma mesquita nos arredores de Paris. Ao chegarmos, disseram para nós, mulheres: “Atravessem a rua e encontrarão uma garagem, lá é o lugar de vocês”. Ainda por cima, era uma data de festa religiosa. Na garagem, era péssima a transmissão do sermão pelo alto-falante. Foi algo extremamente desagradável, me senti insultada. A partir daquele dia, decidi não frequentar mais mesquitas e passei a fazer minhas orações em casa.Kahina Bahloul diz que a separação de homens e mulheres não tem sentido: “É um tipo de esquizofrenia. Hoje todos os dias homens e mulheres estão juntos no trabalho, na escola, na universidade” Foto: Divulgação

Fundadora e presidente da associação Fale-me do Islã e também doutoranda em Islamologia na Escola Prática de Altos Estudos (EPHE, na sigla em francês), Kahina, 39 anos, não se resignou às rezas caseiras e resolveu combater os ditames sexistas do Islã tradicional. Recentemente, anunciou o projeto de criação de uma mesquita mista na capital francesa, batizada Fátima, com homens e mulheres presentes na mesma sala e sermões feitos alternadamente por imãs dos dois gêneros. Se a iniciativa — de estatuto redigido, mas ainda em busca de financiamento e de um local — se concretizar, será a primeira mesquita do tipo na França, país que registra o maior número de muçulmanos na Europa (cerca de 5,7 milhões, segundo o Centro de Pesquisas Pew).

— Penso que essa separação, hoje, não tem mais sentido. É um tipo de esquizofrenia. Estamos no século XXI, todos os dias homens e mulheres estão juntos no trabalho, na escola, na universidade, por todo lado, e quando se trata da mesquita e da religião, a impressão é que se deve fazer marcha a ré. E ainda assim, no século VII, mulheres e homens estavam juntos na mesquita do profeta. Exceto que os homens ficavam à frente das mulheres.

Islã na história

Em seu projeto de mesquita, idealizado em conjunto com Faker Korchane, professor de Filosofia e fundador da Associação pelo Renascimento do Islã Mutazilita (ARIM), mulheres sem véu serão admitidas e os fiéis dos sexos masculino e feminino formarão dois grupos, dispostos lado a lado. A ideia inicial era misturar completamente a audiência, mas, em consultas realizadas, houve muitos relatos do incômodo em ter alguém do sexo oposto muito próximo em ato de prosternação religiosa.

— Apenas para evitar esse embaraço, decidimos que homens e mulheres estarão em lados opostos, mas todos na mesma linha, simbolicamente para dizer que somos iguais — explica Kahina. — Chegou a hora de as mulheres reocuparem os locais de espiritualidade. Se vê isso nos recentes protestos na Índia (contra a interdição de mulheres em idade de menstruar no templo de Sabarimala) ou na existência de mulheres imãs nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Itália, na Inglaterra ou na Alemanha.

Seus argumentos não recorrem apenas ao feminismo contemporâneo, também opõem a historicidade do Islã à propagação atual das teologias fundamentalistas. Kahina critica a predominância dos ensinamentos e práticas de um Islã ultraconservador, e lembra que nem sempre foi assim.

— Os movimentos fundamentalistas como a Irmandade Muçulmana, sejam wahabitas ou salafistas, tiveram os meios financeiros para promover e difundir sua ideologia de forma ampla. A escola de teologia mais conhecida no Magreb é maliquita, que tem as proposições mais duras, e com forte influência na França. Mas no século XII, Ibn Arabi, grande pensador da teosofia mística muçulmana, não via nenhuma restrição a mulheres imãs. E outros como ele pensavam assim.

O anúncio do projeto da mesquita Fátima recebeu adesões, mas também, como poderia se esperar, ofensas e ataques via redes sociais. Em Berlim, a alemã Seyran Ates, cofundadora da mesquita aberta a mulheres e membros da comunidade LGBT inaugurada em 2017, chegou a ter proteção policial após ter sido ameaçada de morte. Kahina afirma ter recebido comentários “duros e virulentos”, mas assegura não ter medo. Se disse surpresa, no entanto, com reações femininas:

— Há também mulheres que recusam isso. É extraordinário, mas existe. É uma mentalidade misógina e patriarcal profundamente enraizada e muito ligada à ignorância. Essas pessoas atuam como papagaios, repetem o discurso salafista, não vão ler nos livros outras opiniões e discursos. Não estou inventando nada de extraordinário, do ponto de vista teológico não faço nada de mal, tento apenas fazer com que se redescubra coisas que estão na própria religião — defende.

Luta pelo poder

Kahina e Faker não estão sozinhos em seu embate na França. Anne-Sophie Monsinay e Eva Janadin, fundadoras da associação Voz de um Islã Esclarecido (VIE) — movimento por um islã espiritual e progressista — também anunciaram um projeto de criação de um lugar de culto muçulmano “inclusivo”. “A rede de mesquitas francesas está dominada por um conservadorismo religioso que se deixa envenenar por lutas de poder entre diferentes facções nacionais estrangeiras, por interesses financeiros desmesurados e pela influência do extremismo religioso. É urgente, hoje, construir novos locais de culto para responder às necessidades de muçulmanas e muçulmanos ‘órfãos de mesquita’ que se sentem sós em sua prática do islã”, escrevem em sua justificativa do projeto.

Em sua mesquita, denominada Simorg, a vestimenta será livre, os sermões serão pronunciados em francês e também haverá alternância de imãs masculinos e femininos. Mas, diferentemente do projeto Fátima, os fiéis homens e mulheres estarão totalmente misturados na sala de sermão, sem a separação esquerda-direita. “Muitos muçulmanos e muçulmanas estão prontos a essa mistura e não suportam mais que se considere as mulheres como seres inferiores limitados a suas partes genitais”, sustentam Anne-Sophie e Eva.

Kahina se impôs como missão oferecer uma narrativa e uma prática religiosa alternativas às correntes conservadoras do Islã:

— É tentar abrir o debate para que as pessoas possam ter consciência de que não existe apenas o discurso que estão habituadas a ouvir. É preciso acabar com a ignorância e mostrar às novas gerações que há uma outra forma de viver o islã — desabafa.

LEIA AQUI O TEXTO PUBLICADO EM “O GLOBO”.

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